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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Oliver ou Twist, ainda não se sabe bem

João-Afonso Machado, 25.05.14

Diz uma grossa fatia do quotidiano, tratou-se de um gesto irreflectido, esse fatal momento do fim da tarde em que o gato gemeu debaixo de um automóvel estacionado, claramente pedindo lhe valessem. Uma breve troca de olhares, uma frase brevíssima - levamo-lo? - e a resposta dada na atitude de quem chama já o bichano. E ele veio prontamente. E, também prontamente, terão ido embora as estadias aqui e ali, as férias, alguma salutar ausência de miados...

Mas não havia como não. Eram as albinegras fomas da meiguice e da fome e do frio e do abandono. A total entrega a uns desconhecidos, fosse lá o que a divindade dos gatos quisesse, para pior não ia. Mais de 48 horas volvidas, banhado e perfumado, no seu ripanço ao sol da janela, ainda não parou de comer. E sabe utilizar perfeitamente o water-closed que lhe foi reservado. Ganhou brilho na pelagem, os olhos desembaciaram. Mas ainda não perdeu a fraqueza das patas, uma quase atrofia do peito. E pigarreia muito.

Por ora, nem sinais de arrependimento ou tristeza, de parte a parte. É, decididamente, um personagem de Dickens. Orfão, escorraçado, esfomeado, sem rumo nem futuro... Sujeito a qualquer atropelo. E Oliver ou Twist, de sua graça de adopção, ainda não se sabe bem.

A história não reclama a bondade de Mr. Brownlow nem a cronometria de um século qualquer - a miséria espalhou-se rapidamente no tempo, e no espaço também. Ao ponto de não ser possivel afirmar todos os Fagins deste mundo não merecem subir as escadas do patíbulo. Mesmo porque não disporiam de consciência que se lhes enforcasse...

E assim ficamos nós, e os nossos irreflectidos gestos, a passar a ferro sobre o water-closed do Oliver ou Twist, ainda não se sabe bem...

 

 

"O Garantia"

João-Afonso Machado, 25.05.14

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Por artes do diabo, não me larga o espírito o fantasma do Hotel Garantia assombrando o centro de Famalicão. Falo – devido é esclarecer – como qualquer ignorante, crente nessas tontices das avantesmas. Falo de cor, em suma. Somente com a voz da saudade a abonar-me.

Dos vivos, é impossivel alguém se lembre. Mas, antecedendo-o, ali residia o Hotel Vilanovense, sobre o qual escreveu Fialho de Almeida incluir-se «no tipo de hotéis de província, feitos à imagem e sabor dos caixeiros de amostras que lá passam: cozinha porca, por onde se passa para o comedor tapando as ventas; nos fruteiros da mesa, peritas murchas e lívidos margotões por sazonar – toalha de nódoas, garrafinhas de vinho verde sem rolha, pratos rachados, contas a lápis nas paredes…».

Fialho de Almeida, se a memória não me falha, morreu em 1911. O Garantia nasceu em 1943, após um dificílimo parto cuja felicidade se deve apenas a tenazes bairristas como Amadeu Mesquita, Álvaro Folhadela Marques e José Joaquim de Oliveira. Tão depressa vinha ao mundo, tão prontamente o colocava a Imprensa da terra no estadão de um «Chiado lisboeta em miniatura»...

Convirá elucidar, jamais levou o Garantia uma vida fácil. Possivelmente pela sua sobredimensão na pequenina Famalicão de outras eras. Mas são ainda muitos os que o recordam bem esperto, povoado de clientes, se mais não fosse vindo cá a tratar das suas varizes...

Já nem sei quando ocorreu o fecho. O derradeiro. Porque aconteceram interlúdios, períodos de carência absoluta que se conseguiam colmatar com novas gerências. E tenho bem presente a imagem do Café, no rés-do-chão, já com o pano dos bilhares esburacado, mas ainda imponente nos seus vitrais, a ventoinha gigante bufando no aperto do calor, e os empregados de lacinho no pescoço, os enormes copos com guarnições metálicas e os bolos de arroz que eram o meu lanche antes de partir para mais um treino de judo...

Agora, umas luzes tristes, à noite, nesta ou naquela janela de persianas estoiradas, revelam que alguém ali habita. Asseguraram-me serem operários da empresa que o adquiriu. Mas o que foi o Garantia, a sua marca ainda mantida na entrada principal, merecia destino mais condizente.

Os tempos são de crise. Um hotel no centro de Famalicão possivelmente é inviável. Nada contesto. Somente desabafo: entre museus, galerias, fóruns, casas de espectáculo ou de acolhimento de necessitados, micro-apartamentos (em cidade de estudos universitários…), o centro geométrico de Famalicão obriga a melhor sorte a tão insigne edifício. A mais vida e a mais alegria.

 

(Na rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 23.JAN.2014)