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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Pior que as pragas do Egipto"

João-Afonso Machado, 15.05.14

Oriundos da Louisiana, EUA, chegaram à Península Ibérica em 1973, no maior segredo político e comercial. Corporizavam um plano concebido por empresários de Badajoz num ousadíssimo negócio do ramo alimentar. E, supostamente, haviam sido reunidas todas as precauções para isolar das populações indígenas estes misteriosos forasteiros em severa reclusão – os lagostins vermelhos.

A fuga ocorreu, porém. Através do rio Caia, um afluente do Guadiana. Assim a invasão atingiu Portugal em Elvas, incapaz de suster essa massa informe, prolífera e resistente como só ela, silenciosa, voraz, disseminando-se pela lusa pátria inteira. À passagem pelos terrenos alagadiços da bacia do Sado já lhe chamavam o monstro dos arrozais. Deslocava-se a uma velocidade incrível, na escuridão da noite e dos túneis que cavava para ocultamente, surpreendentemente, continuar a marcha implacável. Também a Pateira de Fermentelos, junto a Águeda, caiu em poder da horda dos lagostins vermelhos. Por muito que os cafés das redondezas os cozessem e oferecessem à clientela, no tempo dos pratinhos de tremoços, a acompanhar a imprescindível cerveja, nessas esplanadas debruçadas sobre águas outrora felizes e prenhes de carpas. Nada! Multiplicando-se num ritmo alucinante, o lagostim encheu a barriga dos fermentelenses até ao vómito e prosseguiu a sua imparável caminhada. Uma aguerrida, catastrófica, mancha vermelha-crustáceo acaba agora de chegar a V. N. de Famalicão.

Terão os lagostins contado com o auxílio de alguma força anti-patriótica? É o que não sabemos. Certo apenas a tropa ocupante ter bivacado no lago do Parque da Devesa.

E por lá está. Crescendo sempre espantosamente em número. Cavando luras. Tosando a vegetação. Devorando posturas inteiras de ovos, larvas, girinos, destruindo toda a cadeira metamórfica de que o Parque era rico, e os próprios anfíbios adultos, o peixinho que lhes passa ao alcance das tenazes… Já sem espaço onde caiba, tais os contingentes acumulados, convulsionando-se em sintomáticos actos de canibalismo. É quando o lagostim demandará novas paragens, outras usurpações do espaço alheio. Muitos os viram já trotando os relvados da Devesa. Quem os deterá? Às armas, famalicenses!

Se atacado, logo ergue ameaçadoramente os seus membros mandibulares. Mil cuidados! Uma vez entalados nas suas presas, só mesmo a morte do lagostim possibilitará a libertação, o termo de uma prisão dolorosíssima. E, ainda assim, tão complexamente quanto se desmonta, parafuso a parafuso, um pesado gancho de carga e descarga.

Neste comenos, não é improvável os lagostins penetrem as nossas residências. Na hora crepuscular, de pinças em riste logo que a senhora da casa os apanhe na cozinha, buscando a frescura da banca e uns restinhos de comida junto do ralo da pia.

Enfim, estão já condenados os rios, lagos, charcos, poças, ribeiros desta querida terra. Pudéssemos nós contar com o apoio da aviação… - dos falcões, milhafres, das garças… Porque os patos do lago do Parque são como as corvetas da Marinha para as lanchas dos contrabandistas – não chegam. Vozes longínquas invocam um casal de lontras, a preciosa ajuda prestável por esses quiméricos habitantes da Devesa. Ora! As histórias de submarinos têm sempre em Portugal um menos confessável fim…

Saibam, por isso, os famalicenses congregar esforços para salvar a sua Famalicão. Fosse isto tudo mais um devaneio de Orson Welles e eu não diria: espessas nuvens de maldição e praga pairam sobre ela. 

 

(Da rúbrica De Torna Viagem, in Cidade Hoje de 15.05.2014)