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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Correio do Minho

João-Afonso Machado, 21.04.14

Meu querido Amigo e Compatriota:

Escrevo-lhe entre trincheiras aguardando uma morte certa que espero seja gloriosa e breve, muito mais breve do que a terrivel, fatídica sequência de acontecimentos que a determinaram. Perguntar-me-á, se é assim previsivel o fim, o que faço ainda nestas regueiras. E eu respondo-lhe que é obrigação nossa, de minhotos de gema e tantos séculos de História, dar a vida ao longo desse Douro para cima do qual, a passar gente desonrosa, só pisando os nossos cadáveres. Cumpra-se assim o Destino, enquanto não se esvazia a derradeira caixa de zagalotes.

O meu sempre fiável Amigo não se negará o incómodo de dar cumprimento às minhas últimas vontades. Os meus restos mortais quero sejam trazidos para a minha terra natal, se não forem destruídos pelos rojos,  hipótese esta a mais provável. O meu Amigo havia de os ver ontem, disfarçados de gente do futebol, espalhando a Revolução e as bandeiras do sangue por todo o País. Bufando gaitas, encarnados e irados, esses rojos malditos, "mata! mata!" ouviu-se de norte a sul, essa triste canção da morte.

Foi tudo muito rápido, eles vinham chispados, descendo o mapa desde lá em cima, na Crimeia. "São eles!" - puxei eu pelo cotovelo do meu compadre quando os vi. "Eles" - volveu o coitado, sempre lerdo, - "isto é malta da bola, como aqueles ingleses, os diabos vermelhos, como lhes chamam.

Ora, brincadeira fosse, sempre marcharia do lado de Braga, onde realmente os moços do futebol vestem camisetas ao gosto dos matadores do Senhor, e nunca pela estrada da Póvoa e da que vem do Porto. Que é como diz, de todas as bandas. Eram eles, pois então, e, aqui chegando, a primeira coisa que fizeram foi rasgar e pisar a nossa amada bandeira azul e branca, a sagrada bandeira nacional, e impor a toda a gente o recolher obrigatório, tal a chinfrineira.

Os poucos que conseguimos escapar formámos a linha em toda a margem do rio e aqui estamos, o garrafão e o chouriço quase no fim, aguardando o ataque final, ainda por cima sob uma ventania que parece o Diabo já de volta das nossas almas. E hoje veio também a notícia de que as televisões anunciaram um novo Governo chefiado por uma troika constituída por Mário Soares, Vasco Lourenço e Freitas do Amaral, esse magano. Intitulam-se a Revolução de Cravo Vermelho ao Peito e dizem querer acabar com o mais odioso regime de há 40 anos e espingardar a todos nós.

Pois o meu Amigo do coração transmitirá aos meus que morremos de armas na mão gritando até ao fim - et pluribus unum!!!

É tudo, meu inesquecível Amigo. Estará comigo nos laivos finais do meu pensamento.

Creia-me sempre,

do coração

JAMachado.