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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Correio do Minho

João-Afonso Machado, 18.03.14

Minha querida Madrinha:

Escrevo a convidá-la para este milagre que o meu vizinho e muito amigo Edson me anunciou: ver sobre as nossas cabeças a mão do Senhor. Eu sei bem quanto a minha santa Madrinha é ligada a estas coisas da Religião e nem me ocorreu ir a Lisboa participar em tal graça divina sem a levar comigo. Diz que é no Campo Pequeno, que a Madrinha conhece: é aquele sítio onde se fazem touradas, a cada passo transmitidas pela televisão. Até pensei tratar-se de confusão ou de algum filme do cinema, como um, já antigo, em que o artista (a Madrinha explicou então que ele era português, lembra-se?) salvava a moça virgem torcendo o pescoço ao touro no meio da praça. Esse filme que tinha um nome esquisito e se passava no tempo dos romanos...

O Edson não chegou a explicar se nesse dia do milagre vai haver toiros. Ele diz que na sua terra é mais negócio de bruxarias e danças, mas já lhe apareceu a mão de Deus, numa noite qualquer dessas, e jura-me que foi muito bom e a vida dele daí para a frente foi só felicidade. Parece é que convém dar uma esmola generosa porque a gente que fala com Deus e consegue que ele mostre a mão a todos corre o mundo a fazer destes milagres e precisa da nossa ajuda para o sustento. Mas só o programa da visão, mesmo sem toiros, e a tal felicidade que é assunto certo, afiança o Edson, valem bem essa esmola.

A minha Madrinha tão boa há-de explicar depois se já existem bispas. Não é como com os padres, que só podem ser homens?

Também me esqueci de perguntar ao Edson o que lá vai fazer uma pastora. Se for por causa dos toiros, o normal são os campinos, ignorava que esse gado bravo tem pastores a tomar conta dele. Sempre é um serviço perigoso, a Madrinha não acha?

E os apóstolos não morreram todos há muito tempo, alguns martirizados pelos pagãos? Não se zangue a minha santa Madrinha, mas esquece-me às vezes a catequese, tantos anos lá vão.

E, no fim, se calhar há merenda. O pão sagrado será como eles chamam ao nosso folar, é o mais certo. Que esta gente, com estes nomes meio esquisitos, não é de cá certamente. Nem mesmo da terra do Edson que tem um filho chamado Dorival e outro Mirobaldo. Bom, se calhar são de perto, digo eu...

Mande a minha boa Madrinha depressa a resposta se quer ir. Daqui vamos todos em caminheta, numa excursão até Lisboa.

Com muitas saudades e os votos de continuação de muita saúdinha, querida Madrinha, pede-lhe a benção este seu afilhado que tanto a estima,

JAM