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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A violência sem voz nem gestos

João-Afonso Machado, 12.03.14

Nada se via oprimindo o homem. O quarto era dele, a cama acolhia-o muito asseada, a noite estava por sua conta. Somente aquele pingue-pingue da água gotejando na bacia o atormentava há horas. Crescera como um ruído infernal já. Tão mais infernal quanto imparável. Assim infinitamente até ao desespero e à demência. Cá fora, alguém instado pelo repouso de S. Ex.cia, kafkianamente respondia que sim, S. Ex.cia descansava tranquilo, com ninguém a incomodá-lo.

Isto foi o filme de ontem e é a realidade de todos os dias. Onde, no entanto, se confunde sempre aparato e violência, como se esta não fosse, vezes e vezes, muito mais o silêncio e a indiferença.

Onde houver violência há intencionalidade. E sobre a impulsividade relevará a premeditação. O violentador quer violentar e, para tanto, apontará ao lugar mais frágil do violentado. O verdadeiro violentador é, em suma, frio, racional, paciente e inamovível nos seus propósitos. Além de infligir sofrimento, apraz-lhe ver sofrer. Jamais pede desculpa. E cala os seus hipotéticos remorsos justificando o mal que pratica com outro pretenso mal de que foi vítima.

Consciente ou inconscientemente, o violentador é, assim, vigativo. Sirva-lhe de atenuante a sua incapacidade (ingénita?) de compreender a natureza humana além do seu próprio perfil.

Sem embargo, muitos discretos pingares de água continuarão levando o mundo à loucura, ante a atitude beatífica e complacente de quem voluntariamente não veda a torneira.