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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A moliçada

João-Afonso Machado, 11.03.14

Fui em busca dessa imagem de outros tempos: a garrida elegância dos moliceiros sulcando o silêncio infinito da Ria. Fui pelas suas esguias formas, numa anacrónica vontade de retratar curvaturas, trechos pintados da vida de quem anda ao moliço.

Fui e voltei. De olhares vazios.

É que ele agora é mais lanchas. Motores e aceleradores. Não que o passeio não continue bonito. Mas, ou muito me engano ou moliceiros apenas na cidade de Aveiro - curveteando nos canais da Veneza portuguesa para consumo turístico. E sendo estes - os turistas - de proveniência sobretudo não nacional, qual o meu espanto ao vislumbrar finalmente as almejadas curvaturas à proa e à ré! Explico porquê:

Tradicionalmente, os motivos que as decoravam eram por regra religiosos. Andar nas águas tem sempre os seus senãos e nada como a benção dos Céus a prevenir... Mais tarde, decerto após a propalação da desembaraçada Mulher da Nazaré, a devoção deu lugar aos costumes locais. E a faina das gentes ribeirinhas virou pintura. Mas, presentemente... - não sei se por inspiração brasuca, se por errónea interpretação do atractivo turístico, entrou-se na piadola barata e brejeira. O desenho obedece ainda, puramente, ao estilo simplório do falecido Vilhena. O andar das embarcações, no entanto, promete formas assaz mais expressivas e contundentes. Aguardemos, pois, o evoluir da iconografa nos moliceiros - da hagiografia para a etnografia, adornando já, perigosamente, para a pornografia.

(Ah! - resta só acrescentar, aquele trapo encarnado e verde à ré sem dúvida não desmerece esta moliçada).