Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O Palheiro de José Estêvão

João-Afonso Machado, 10.03.14

É sobretudo difícil apanhar a ponta da meada nas recordações de tantas décadas já. Talvez possamos começar pelas célebres feijoadas de verão no pátio, ou nas pescarias na ria, então mesmo do outro lado da estrada, engulindo arbustos inteiros da margem na maré cheia. Na inesquecível dourada, digna de encher uma travessa, e no meu orgulho ao regressar com ela, pescada por mim, ante o olhar desconfiado da geração adulta, avaliando os meus quinze anos e inquirindo, incrédula, - mas foste mesmo tu? - como se eu não fosse capaz, o que não ouviu depois o Pai, furiosos desabafos, então não é que "eles" duvidaram... Temporadas depois eram as investidas à Gafanha da Nazaré, à boleia, as canas na cobertura que a Avô cosera em lona, o saco dos apetrechos, a demanda das taínhas de quilo rabiando na ponta da linha, uma luta imensa para as tirar cá para fora.

E à boleia chegávamos à Costa Nova. Ainda longe da novidade da auto-estrada, vindos de Aveiro ou de S. Jacinto (com direito a travessia de lancha até à Barra), consoante o destino do benemérito. Eramos muitos, as meninas a dormirem lá dentro, os meninos acampando entre as areias e os jacintos do recinto circundante.

Lembro, por isso, um interior do Palheiro de José Estêvão onde pontificava o escadório que raramente subi. E um varandim no andar cimeiro em forma de quadrilátero, rodopiando o edifício inteiro.

A idade ensinou-me depois a respirar os ecos do grande tribuno e a presença do seu filho, o Conselheiro Luís de Magalhães. Quando já muitos tinham fugido, um estar constante no nosso querido lado perdedor - o da Monarquia. Fiel até ao fim. Uma imensa personalidade, com um defeito apenas - o de escrever com uma letra indecifrável. De tal maneira que, não fora assim, o biografaria (a partir da sua imensa correspondência ao meu dispor) como mais ninguém o fez ou faria. Enfim... quem sabe um dia, uns meses de disciplina e perseverança...

O Palheiro está repleto de saudades. Nem sei se cabe lá dentro algo mais. Falo de mim, de muitas gerações de parentesco e amizade e, até, de quantos lugares Eça de Queiroz encheu com o seu génio nas suas visitas ao amigo Luís de Magalhães. Perceba quem quiser ou souber - são coisas que mexem connosco. 

Luís de Sottomayor, meu caro, toma lá um abraço que repartirás (como te compete) por igual e por todos os teus. Quando aí voltar, em veraneio, exigo acampar como antigamente. Hoje não me apetece envelhecer.