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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Correio do Minho

João-Afonso Machado, 02.03.14

Meu Ex.mo Amigo:

Escrevo a comunicar-lhe a triste nova: o Minho submergiu. Literalmente - submergiu. Claudicou, afogou-se, desapareceu na fundura das águas pluviais. De forma súbita, ainda hoje eu lia, cheio de um ânimo solidário, o trabalhoso regresso de Ulisses à sua Ítaca, quando reparei nos progressos da inundação. Já o meu coração, sempre precipitado, sumia perdido na força da correnteza e foi só o tempo (e a ajuda dos meus bem conservados reflexos) de lhe atirar a ponta dos dedos e conseguir puxá-lo para mim. Torci-o, enxuguei-o, repreendi-o severamente e, porque nada adiantasse pô-lo a secar na varanda, dei-lhe um cheirinho de micro-ondas. Cá se vai aguentando, esse asneirento impenitente.

E saiba o meu estimado Amigo, o reboliço atinge já as ideias e os conceitos. Os teólogos da Arquidiocese debruçam-se agora sobre uma nova versão do Inferno, não já um braseiro sulfuroso, antes um lago imenso a cujas águas são lançadas os pecadores sem perdão. Assim a vontade divina silencia eternamente a classe política, reflectem eles. Mas a hipótese do borbulhar à superfície, resultante das vozes abafadas lá em baixo, enganar os incautos e inocentes pescadores - trocando uma expectável e bojuda carpa pela desagradável surpresa de um hipotérmico, esfaimado e eloquente deputado - não consentirá alterações dogmáticas antes do próximo Concílio.

Enquanto isso, prezado Amigo, foi-se o velho Minho dos pinhais e dos verdejantes prados. Restam os campanários das igrejas, como este onde lhe escrevo tão borratadas linhas (jurei a mim mesmo se escapar ao aperto nunca mais usar tinta permanente...). Enfim estamos todos: eu, as duas pequenas e o meu canário, especialíssimo à minha alma - e aninhado no bolso do blusão, ainda impermeável. Aguardamos surjam os meios aéreos que nos levem para lonjuras mais secas. Os meios aéreos - esse eufemismo com que os governantes tentam esquecer-nos de que nem helicópteros nem... submarinos. Nada! que nos salve...

A carta segue na próxima garrafa que passar aí, ao alcance da mão. Creia-me, meu Ex.mo e bom Amigo, saturado e encharcado de chuva, mas sempre muito atento e obrigado,

seu

JAM