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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Mordomias

João-Afonso Machado, 17.12.13

As imagens iniciais de O Mordomo são perfeitamente aceitáveis e mesmo úteis, tratando-se de um filme de adultos, tanto mais que se reportam, não aos antecedentes da Guerra da Secessão americana, mas à cultura do algodão no Sul já em tempo dos nossos pais. Onde um branco ainda baleava mortalmente um negro - o desafortunado marido da mulher recém-violada pelo assassino - e nem por isso era consentido aos demais abrandar o ritmo da apanha.

Era assim, sem ponta de exagero. Até a II Grande Guerra foi uma honra apenas reservada aos brancos. Provavelmente devido ao medo de ver um negro armado...

E o filme retrata, no fundo, essa lentíssima evolução - onde o homicidio de Kenedy constitui um verdadeiro balde de água fria - até um negro atingir a presidência dos EUA e, espera-se, a sociedade reparta, no plano racial, os mesmos direitos por todas as gentes.

Mas talvez muitos se esqueçam que a escravatura oficialmente foi extinta na América em 1865. Na sequência de uma guerra sanguinolenta em que 2 milhões de vidas foram perdidas em campo de batalha. Combatida pelo idealismo de alguns e pela hipocrisia de muitíssimos.

Porque, entre 1863 e 1865, o que esteve verdadeiramente em causa não foi a dignificação dos negros mas os interesses políticos e comerciais do Norte federal, visando derrubar o poderio económico da Confederação sulista. Vencedores do conflito, proclamaram a liberdade dos escravos mas negaram-lhes o trabalho livre, assim mantendo a dependência e a humilhação dos negros. Até aos nossos dias.

André Malraux disse que são precisos 60 anos e não 9 meses para fazer um homem. Considerando o homem social, a sua visão é optimista.