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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Coisas da velocidade

João-Afonso Machado, 15.03.13

Era um espectáculo a que ninguém ficava indiferente. E era uma linguagem à parte, um horizonte colorido com aquele entusiasmante aroma do combustível de competição. Vivendo o seu auge nas pistas mas com muita animação, tantos sonhos, na traseira do prédio, em oficinas improvisadas, mundo de autodidactas. Ontem ainda, de uma varanda em frente, gozava-se o afinar dos motores, a resmungadela das máquinas, as suas fúrias: os ratès.

Qualquer coisa ia mal se os bólides se punham aos ratès - porque lembravam isso mesmo em que estão a pensar - em plena recta, como se trocassem as rodas a modos de quem se contorce e retesa os músculos das pernas. Logo algum entendido:

- Está a dar problemas...

assim bem se expressando na gíria automobilistica, em que ter problemas nada significa.

Vinha a ser, fatalmente, um mais fora da corrida. O material era caseiro, de série, próprio para levar a criançada à escola durante a semana. Tudo rapaziada remediada. Mas aferroada. Se não desse para mais, sempre se sacavam umas faniqueiras

Isto é: faziam-se uns peões...

 

 

"Habemus Papa"!

João-Afonso Machado, 13.03.13

Jorge Bergoglio, arcebispo emérito de Buenos Aires, 76 anos. O Papa Francisco. O único assim chamado em toda a História da Igreja.

Adivinhava-se a escolha de um Sumo Pontífice não europeu. Surpresa maior será a sua origem jesuítica, as traves mestras por que parecerá querer sustentar o seu múnus. O nome escolhido fala por si, invocando a pobreza de S. Francisco de Assis, mas também o missionarismo e a grande cultura cientifica do co-fundador da Companhia de Jesus: S. Francisco Xavier, o «apóstolo do Oriente» e o padroeiro das Missões.

Contra o mundo em miséria, por uma Igreja voltada para todos. Será esse o lema?

 

 

 

 

Machado, Fm

João-Afonso Machado, 11.03.13

Uma cerveja, um cigarro e uma tarde ventosa de chuva, a dez andares do solo. Muito, muito, longe da terra. Vão lá umas tantas décadas. Kevin Ayers, a famosa cassete de 90 minutos, gravada ali para Arroios, era então a grande companhia. Decerto por corporizar o ritmo e a voz, a melodia da distância e da saudade e tomar-nos conta do ouvido e do espírito. Logo seria noite, acender-se-iam as luzes e os sorrisos, um passo mais em direcção ao fim-de-semana.

 

 

Noticias do bananal

João-Afonso Machado, 11.03.13

Enquanto os venezuelanos lá continuam a carpinteirar a eternidade de Chavez, a qual parecem conseguir encafuar na transparência de um esquife, enquanto isso, os acontecimentos políticos precipitam-se animadoramente. Há o curiosíssimo episódio da leva do testamento do grande timoneiro para a Argentina, há o monumental pontapé pregado na Constituição, atingindo na cara, em cheio, Diosdado Cabello, o presidente do Parlamento, há o Interino Nicolás Maduro, já fardado de gala, já medalhado, já mandando em toda a gente - a anunciar-se candidato à chefia de Estado; e há a candura do lider oposicionista, Henrique Capriles, a dizer também - que também ele será candidato!

As Repúblicas são o que são e as Repúblicas sul-americanas são-no ainda mais. Não parece despropositado reler o Tintin e confirmar a actualidade de Hergé.

Mesmo quando Evo Morales afirma que Chavez morreu envenenado pelo capitalismo, é ainda o espírito arumbaya, redutor de cabeças, que fala.

Ou muito me engano, ou iremos ter um Abril em cheio!

 

 

 

 

Um falcão na cidade

João-Afonso Machado, 10.03.13

A distinção de cidade é cruel. Será sempre, para tantos, "a Vila". A vila da nossa infância e da nossa juventude, hoje transbordando muito os familiares limites de então. De quando só o hospital tinha elevadores... Enfim, sobrevieram os prédios imensos, as torres, como cogumelos no tempo deles. E o título - "cidade"! Não podia ser de outro modo, não ficam ressentimentos, e é maior, muito maior, o entusiasmo da visita rara, quase inaudita - um falcão peregrino sobrevoando os seus céus, predador compulsivo, sedento de pombas. Entre estas, sim, foi o pânico total. 

Rasou as cumeadas dos edificios maiores. Creio tenha almoçado lautamente. Abalou. Aos fins-de-semana, quando o movimento nas ruas decresce notóriamente e o silêncio consente se oiçam estas e muitas outras manifestações de vida, talvez regresse um dia qualquer. O seu quid pro quo com as pombas é um assunto da Natureza, e a fulgurância do seu voo um espectáculo sempre convidativo.

 

 

Tarzan e Jane

João-Afonso Machado, 09.03.13

Um súbito grito despiu o silêncio que se resguardava entre a vegetação frondosa. Alvarmente (Edgar Rice Burroughs mentiu-nos, Lord Greystoke nada tinha a ver com Tarzan), desabridamente, o grande figurão, a mão em concha junto à boca, soltou o macacal berro a pedir auxílio ao pessoal do cipó - Jane, escanzelada e com péssima cara, decerto doente, esvaziara o coqueiro, a bananeira, e queria mais; isto é, queria quem fosse buscar mais. 

Já os gorilas todos se afastavam, cansados da ditadura na selva, fartos de servir, incapazes de alcançar o que vislumbrava Tarzan em tão imprestável Jane.

Assim o casalinho deu consigo à deriva, na savana, a uns quantos meses da estação das chuvas. Tarzan já não lhe sobrando as forças para a grande cavalgada de Jane às suas costas - escanzelada, sim, mas roufenha, rouquejante, a picar-lhe os miolos e a famosa audição do homem-macaco.

Como tudo acabará? Sobreviverão eles?

Iam os espectadores apostar não... - quando, no horizonte, surge um pouco resguardado acampamento de brancos caçadores e a história parece querer dar uma reviravolta. Agora, todas as noites Jane e Tarzan (a mão sempre em concha, oh-ih-oh, a meter conversa com o bichano dos exploradores) espreitam a paliçada à cata de algum alimento, algumas sobras, um qualquer vestígio de qualquer coisa, nem sabem eles o quê.

E do lado de dentro desse facebook da vida a gente do acampamento pressente já a visita dos estranhos, sabe-se observada por desconhecidos, na certa não amigos, o que misteriosamente intentarão?

Redobradamente vigilante, ainda demorarão uns dias de expectativa. Afinal, o acampamento-facebook visa apenas expor trabalho, em nada pretende contender com o indígena... Não haverá, pois, que temer.

 

 

 

A princesa Mécia

João-Afonso Machado, 08.03.13

Mécia já nasceu. E o nascimento de Mécia, deixem ser franco, diz-me imensamente mais do que as todos os dias dissecadas esperanças de Kate Middleton. Com o maior respeito: unicamente porque as questões dinásticas dos britânicos a eles interessam e as minhas a mim entusiasmam e preocupam.

Seja até porque Mécia ainda não pode dispensar o acompanhamento materno, restando-me assim a dolorosa moratória de cerca de um mês. Só então ela virá para casa. Não exactamente um palácio, antes reduzido apartamento. Mas o ribeirinho corre um pouco à frente, as árvores estão todas lá, a passarada canora também. É um bom começo. O tempo voa e com ele voam as codornizes e as perdizes.

Porque Mécia - a princesa Mécia - reinará em outro reino, o dos muito nossos perdigueiros nacionais. E aposto tudo na sua ínclita geração, que em questões desta seriedade o sangue é sempre uma garantia.

 

 

Machado, Fm

João-Afonso Machado, 07.03.13

Foi assim. Já um prenúncio do famigerado disco-sound? Ainda a soul, a funkie? Lembro apenas, em resposta, as festas - os bailes! - no Liceu. (Lembro muito mais, é claro. Lembro como elas ensaiavam os passos de dança. E lembro, acima de tudo, tempos felizes).

Os putos resignavam-se com o olhar. Era eu. Os mais alentados iam lá buscá-las e o salsifré fazia-se. Em letras simples, alegres, corridas como essa breve escapadela à severidade do quotidiano. Assim gozámos dias longínquos de chegar a casa mais tarde. Rock the boat, aonde?, como?, a que propósito?

Hoje podes dizer-me. Quase quarenta anos depois.

 

 

 

 

Flagrantes da crise

João-Afonso Machado, 06.03.13

É muito dificil escolher qual destes casos melhor ilustra a nossa crise. A verdadeira crise, a tal que conduziu à outra e nos impede sair de lá. Sirva de exemplo a quebra animica das nossas Forças Armadas. O seu pessimismo. As noites por dormir de quantos militares, oficiais, sargentos e praças, a sua angustia ante a iminência da perda da soberania nacional. Leia-se: da sua aposentação compulsiva, agora que se fala em reduzir contigentes e despesas.

(É bom recordar que a Democracia nasceu em Portugal filha da igualdade entre os senhores do quadro e os milicianos...)

Adiante. Até ao patriótico MRI - Movimento de reformados Indignados, uma agremiação de bancários e banqueiros que pretende combater a taxa CES (Contribuição Extraordinária de Solidariedade), a incidir sobre reformas de valor mensal superior a 1.350 euros.

E assim se percebe o desabafo de um reformado numa qualquer conferência do MRI - «Vocês são execráveis! Não prestam!».

 

 

Ruas de um tempo diferente

João-Afonso Machado, 04.03.13

Assim nos lembrássemos de todas as casas que conhecemos vivas e conversadoras à janela. Como se tornássemos ao tempo dos calções e das ruas ainda humanas. Das lojas que eram o nosso quotidiano, dos lojistas que um dia partiram, parece vê-los saindo a porta, levados às costas de uns tantos, entre flores e o estandarte da confraria, a dobrar a esquina na sua derradeira viagem. O adeus ao Sr. Manuel ou ao Sr. Joaquim ameaçava revoltear o mundo que sempre funcionara como um pêndulo, e sequer sabiamos - o pior vinha aí.

Foram os supermercados, os shopings, os hiper, as megasuperfícies. Foi uma avalanche de gente a cair-nos em cima. Ávida não se percebe exactamente de quê, mas sem dúvida ávida. Tudo em nosso redor se transformou em avidez. Sobretudo as construções, encaixotando-se umas em cima das outras, sempre para mais alto, gente engaiolada a discutir de uma varanda para a outra. Ávidamente.

E ávidamente haviamos apenas de acreditar no regresso do Sr. Manuel e do Sr. Joaquim, na nossa rua reordenada, num pouco de sossego, talvez mesmo em menos motores. Porque foram eles - somente eles - que nos encurtaram o tempo em longas filas de trânsito, muito mais longas e muito menos pessoais do que aquelas em que, há anos, acompanhámos o Sr. Manuel e o Sr. Joaquim à sua dita última morada. Assim eles voltem; assim se esfumace a fantasmagoria do tráfego nas nossas ruas.