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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Machado, Fm

João-Afonso Machado, 02.03.13

O single, insignificante, com a chancela do Zip-Zip, apareceu um dia em casa de uns tios, de Manuel Freire nada sabiamos, mais um cançonetista talvez. Mas, em desespero de causa... A Pedra Filosofal, o que será isso?..., olha, põe lá no gira-discos, deve ser uma porcaria.

Estava-se em 1973. Não cedo de mais para que a atenção se nos prendesse logo aos primeiros versos de Gedeão, buscando os contornos do sonho entre a força das suas palavras. Numa cadência sempre mais acelerada, passarola voadora, locomotiva, foguetão, e depois naquela final contemplação - eles não sabem nem sonham que o sonho comanda a vida, que sempre que o homem sonha o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança...

Onde existe o sonho, a multidão estará sempre arredada...

 

 

Correio do Minho

João-Afonso Machado, 02.03.13

Preclarissimo Senhor:
Militante das Manifestações

M. Pombal - Pr. Comércio (Lisboa) 

 

Irreverent.mo Iluminado:

Com certeza erguereis hoje bem forte a vossa voz contra aquele casalinho que a SIC acompanhou anteontem na sua viagem do Porto a Londres: com somente dois mil euros no bolso, sem uma morada de referência. Mas à procura de melhor vida que terão encontrado logo ao segundo dia, trabalhando como recepcionistas de hoteis. Oitenta horas por semana, explicaram eles, felizes, e nessa felicidade residirá certamente a vossa indomável raiva. Como oitenta horas por semana? Como não metade, apenas?

Foi o que também lhes perguntei, levando por resposta estarem ali para dar o litro, organizar a vida, comprar uma casa, terem um dois filhos, se calhar e se chegássemos a entrar mais adentro na sua privacidade.

E, tinham eles concluido, não era com manifestações, pedras e canções, muito menos com orações à Senhora de Grândola, que atingiriam os seus desideratos. Calei-me, então, macambuzio, desprovido de argumentos. Recordando tudo o que foi a nossa emigração nos 60's. O que foi, talvez, a vida dos senhores vossos pais para que andeis, vós agora, aos berros avenida abaixo, incomodando toda a gente para proveito de ninguém.

Aqui para cima - onde ainda ontem se lia num jornal que é uma terra pobre mas, curiosamente, com muita qualidade de vida - abriu entretanto a pesca à truta. Lá iremos esta tarde, eu e a minha eleita, a ver que tal correm os nossos ribeiros. E vai também a perdigueira, porque insisto que ainda hei-de apurar uma raça canina de caça e de pesca. Coisa única no mundo, de exportação garantida para os quatro cantos do globo. Uma potencial caudalosissima fonte de emprego...

Mas nessa altura, Irreveret.mo Iluminado, não conteis comigo e com um lugar na minha Empresa. Soam ainda no ar as provocações, os dichotes, os petardos, as pedras e as latas, as horas seguidas de desafio à paciência policial. Para no fim sairdes de lá um mártir! Não, Irreverent.mo Iluminado, nunca mais aqui teriamos o sossego de que as cadelas precisam para parirem.

É essa a vossa sina e a vossa ocupação: desocuparde-vos por vocação.

Tentai antes, por isso, um sindicato. De preferência com quotas em dia...

Que sejais muito menos maçador do que estas minhas letras, é o que melhor vos pode desejar o

 

JAM