O Herói de Alberto
«(...) Todos o conheciam, e ao seu parceiro, o Herói. Inseparáveis os dois, o Alberto e o seu cãozito, também ele de idade incalculável, o pêlo acastanhado e comprido, já um pouco ralo no dorso. Por isso censuravam as mamãs as suas achegas aos filhotes, tão a contragosto do Herói, que adorava crianças e sabia andar em duas patas.
Não tinha o Alberto um amigo mais fiel, um bem que lhe fosse mais precioso, latindo de manhã à noite o prazer que sentia em estar ali, os dias todos, na companhia do dono.
Residiam em lugar desconhecido, hoje acolá, provavelmente, amanhã além. O Alberto dispensaria a cama, mas o Herói, é certo, dormia sempre no seu regaço. Era, mais as suas frondosas barbas grisalhas, o cachecol, o quente que lhe secava a humidade das noites mais agrestes.
(...)
Eram noites em que o cantorio prolongava, junto do rumorejar das ondas, estranhos e tardios bafos oratórios. Como se cantasse chamando pelas estrelas quentes do Estio, à espera que S. Martinho acordasse e cantasse também.
O Herói gania em coro com aquelas estrofes sem silabas, sons levados pelo mar e pelo vento, perdidos na escuridão deserta da praia. Por vezes, alguém passava à distância e ouvia:
- Lá está o velho Alberto com a piela! Qualquer dia fica-se, de uma escorregadela no cais.
Mas não, quem adivinharia que, mesmo então, nessas madrugadas de hinos ao sol do Verão, o Herói lhe guiava os passos no breu, sempre à ilharga do dono, cravando, se necessário, os dentes no trapo que lhe cobria as pernas, a corrigir-lhe a trajectória? (...)».
(Vd. Os Heróis de Alberto, in Contos do Tempo, ed. DG Edições, 2008).
