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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Hoje, o fim do mundo

João-Afonso Machado, 21.12.12

Constata-se, o dia parece propício. Esta escuridão, esta morrinha, esta tristeza matinal... Só não sabemos a que hora começa, e por que forma espantosa. O fim do mundo, é claro, agendado para hoje.

Foi tudo tratado um pouco em cima do joelho. Com mudanças é sempre a mesma coisa... Mas ontem lá conversámos todos, a saber dos planos de cada um - o que fazes tu no fim do mundo?

O Diogo garantiu-me que não saía de casa. Já não tem pachorra para confusões. E o Luis vai para Afife: diz que gosta sempre de um primeiro mergulho nas ondas do tsunami terminal.

Já o Toninho escolheu o Gerês. Um cagarola, este Toninho, o seu fatal pretexto da natureza e das cabras e garranos, mas agarrado às altitudes onde as águas demorarão a chegar. Ficou-se pelo Antigo Testamento, o nosso Noé nortenho. Bastava-lhe um desviozinho pela banda desenhada, Edgar P. Jacobs, não mais, e perceberia que o cataclismo pode vir da imensidão celestial, sob a forma de bolas de fogo a atingi-lo antes que à gente, com maldade e impiedade (aliás, julgo que neste fim do mundo anda mão do Coronel Olrik) e transformando a Caniçada numa sopa imensa a escaldar, senão mesmo no refúgio de um vulcão clandestino em erupção alvar, pobre Toninho e a sua esturricada familia.

E eu por mim ainda não decidi. O fim do mundo está muito mal organizado, ninguém conhece o programa, não fui informado de horários e tenho um julgamentozinho nos Julgados de Paz. Uma maçada! Se nada acontecer, entretanto, irei até à minha terra. Tenho lá a quem abraçar no momento derradeiro. Vai ser um espectáculo nunca antes presenciado.

Bom fim do mundo para todos!