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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Onde, afinal?

João-Afonso Machado, 17.10.12

Enganosas cores da manhã e dos carreiros por onde pedalam a nossa imaginação e o nosso querer. Os nossos sonhos. Assim de repente, sob a pala do boné campestre e de um quase tweed, costas saudavelmente hirtas, a terra e o berço parecem erguer-se do infortúnio e atravessar o Canal. - Good morning! - juraria ter ouvido, travando ligeiramente à passagem, um sorriso talvez desajeitado, fugaz, ao longe latiam as matilhas tricolores. Beagles, harriers, foxhounds... E aromas de borrego cozinhado, cozido, cercado de vegetais, insípido, é certo, mas tão deles como a cup of tea... - Hello - respondi, ainda baratinado, esquecido de um qualquer dito de circunstância, também gosto de tea e de cerveja, embora prefira vinho, mas não recusaria o carneiro nem aquelas couves deles sem pingo de azeite.

Afinal, era na minha terra, no meu berço, desassombrada de factorys a turvar-lhe a beleza e o futuro. Num domingo de alguma vez, depois dos ofícios religiosos.

 

 

O "experimentalismo"

João-Afonso Machado, 16.10.12

Que a Esquerda veja no Ministro das Finanças um sheriff de Notthingam, ávido de espoliar os pobres em proveito dos ricos, faz parte do habitual folclore, sem o qual a vida se tornaria desinteressante. Mas que a Direita se comporte como tem demonstrado, constituirá, decerto, cabal desilusão e desesperança. Em definitivo, Portugal não irá a lugar algum.

E a cegueira de muitos leva-os a adivinhar em Victor Gaspar tal desorientação política que os seus dias se transformaram em «experimentalismo» puro, como se de olhos vendados tropeçasse e tacteasse à procura da porta de saída da crise.

Bom seria tomassemos todos consciência da única «experiência» com que nos deparamos: uma situação de colapso económico e financeiro sem precedentes. Vinda dos quatro cantos do planeta e encontrando especial acolhimento na parasitária ambiência desta República sem rumo nem destino.

De modo que, sentindo o aperto em bolso próprio - e não no sempre longínquo bolso do vizinho... - o Tuga revolta-se, reclama, vocifera. E vai de deitar barreiras ao chão frente a S. Bento. Como se, num toque de varinha mágica, Esquerda e Direita se esbatessem numa só vaga de protestos. Com o Ministro como bode expiatório e alvo.

É duvidoso o Governo se aguente. Já muita rataria ameaça esgueirar-se por baixo da mesa... Sendo que, a verificar-se a sua queda, não haverá "depois" para se compararem políticas e se aferirem razões. E sendo, também, seguro que Victor Gaspar regressará então à sua carreira profissional - algures na Europa, fazendo tranquilamente render os seus méritos. Ou seja, vivendo do trabalho próprio, nunca do erário público, sequer sob o pretexto de se candidatar à louvável condição de filósofo.

Em suma, em paz e sossego com a sua consciência e liberto da chinfrineira de um País que já só está em liquidação de existências.

 

 

Até aos sábados...

João-Afonso Machado, 15.10.12

Era inverno, não amanhecera ainda e, emborcada a cevada e o "mata-bicho", o Manuel fazia-se ao caminho. Literalmente ao caminho, tortuosa colecção de buracos e lama por onde chegaria à estrada nacional. De porta a porta seriam quase uns quinze quilómetros e o seu destino era a empresa de cimentos onde se empregava.

Chovia torrencialmente. Uma chuva tocada pelo vento, e o Manuel envolto em plásticos, presos por atilhos às suas canelas, um saco enfiado no pescoço, cobrindo-o, e outro, menor, a tapar-lhe a boina. E as mãos, sem luvas, firmes no volante da bicicleta. Da sua pasteleira roda 28.

Antes da partida, o derradeiro cuidado: o dínamo a roçar a roda dianteira e uma luzinha tímida tremelicando rampa fora até sumir na curva lá em baixo. A aba da bolsa onde transportava a marmita com "o comer do meio-dia" dobrava-se sobre o varão do quadro daquela sua cavalgadura a pedais.

Regressaria só à noitinha, encharcado, arroxeado, estafado, a pedir o presigo e uma malga de vinho que ia toda de uma golada só. Depois, o quente da cama, logo de seguida, e umas horas de sono até nova madrugada. Salvo se amanhã fosse domingo.

No verão, o sol abrasador encarregava-se de o acompanhar ao trabalho e de voltar para casa com ele. Longas filas de ciclistas, nesses dias maiores, ofegavam naquela subida imensa da estrada para Braga, apeados, encurvados, segurando as suas pasteleiras pelo guiador, enquanto sonhavam com a próxima descida, ainda tão distante, e duas rodas a zunir embaladas, levando-os ao colo em vez de lhes tolherem os pés e as pernas já estenuadas.

Assim decorreram muitas vidas, já tão no esquecimento, de labuta diária nesses anos em que sequer sobrava margem para a doença, somente para morrer. O Manuel já lá vai, coitado. Mas foi dos que ainda chegou a provar o luxo das motorizadas, a Casal de duas mudanças da sua velhice.

 

 

 

Oviedo

João-Afonso Machado, 14.10.12

Talvez nem possa ser outro o fado das Astúrias - o de uma incursão, sempre breve, incompleta, apaziguada por promessas de regresso e um resignado travo de saudade. A distância aniquilou os muçulmanos de há muitos séculos. Ainda hoje cansa, moi, esmorece. Só ela é quase tudo. O sobrante emocionou-se em imagens e diverte-se em excessos gastronómicos. Oviedo, a capital, foi precisamente um intervalo célere, uma visão, desejo contido e impossivel de satisfazer.

Até outro dia, para um pouco mais à conquista do Reino da Reconquista.

 

 

Arquitecturas

João-Afonso Machado, 13.10.12

Oviedo, capital dos primeiros passos de uma História de muitos séculos, a da Reconquista cristã. Para lá de picos mais altos do que as nuvens e de todos os desfiladeiros onde os muçulmanos perderam a esperança de se assenhorear por completo da Peninsula Ibérica. Não é difícil imaginar o que por lá vai de referências do Passado e de orgulho identitário. A par com surpresas absolutas, as mais inesperadas.

A arquitectura moderna tem beleza e tem o seu lugar na evolução da urbe. Decerto movimentando-se centrifugamente, tal qual a cidade cresce do centro para a periferia. É uma opinião, a minha - a opinião de quem admirou o "Edifício Santiago Calatrava", emaranhado de espaços de cultura e de comércio ou lazer, imaginação de formas a lembrar a lisboeta Gare do Oriente. Porque, num caso e no outro, o arquitecto foi o mesmo - justamente Santiago Calatrava. 

E, em ambos, em cidades com longos memoriais, assim não prejudicadas na sua natural expansão, no desejável curso por que o Tempo todas as polémicas transforma em quietas manifestações de Arte.

 

 

"Intransponível"

João-Afonso Machado, 13.10.12

Olhares cardados em vontade de ir

subiram cumes enevoados

de segredos.

 

Uma só ideia – partir!

descobriu o sol,

susteve medos.

 

Mas um corpo ágil depois mole hesitou,

alma quente arrefecida

nas gretas da impiedade

onde escondida uivou

a dor da saudade.

 

 

Reconquista

João-Afonso Machado, 10.10.12

 Não é fácil encontrar as palavras logo antes da partida. Serão umas horas de automóvel, os olhos postos no espaço em torno e os ouvidos no eco das montanhas, a vontade criada em forma de regresso. As Astúrias são muito mais, tão pouco ou tão curto trouxera nos sentidos.

Era necessário voltar. Lá, ao lugar santo da Reconquista.

 

 

A propósito do despudor soarista

João-Afonso Machado, 09.10.12

Do obrigatório «O Poder e o Povo» (pág. 59) de Vasco Pulido Valente:

«A cada instante o Partido Republicano Português forçava a legalidade estabelecida: ou seja, não se limitava a usar os seus direitos, mas sistemática e deliberadamente os transgredia. De 1903 a 1908, a imprensa republicana constantemente cresceu em brutalidade e intolerância. Em 1907, por exemplo, O Mundo fez vários apelos explícitos à revolução, lançou uma campanha contra o pagamento de impostos e chegou mesmo a incitar ao assassinio político. Depois da morte de D. Carlos, tratou os regicídas como mártires e abriu - com propositado aparato - uma subscrição a favor dos filhos de Buiça. Também no Parlamento os deputados não perdiam uma oportunidade de provocação: Afonso Costa não hesitou em ameaçar D. Carlos com o patíbulo; João de Meneses e Alexandre Braga foram suspensos por insultos ao rei; e António José d'Almeida só não os seguiu porque a Câmara não lhe quis dar esse prazer».

O sempre buliçoso Mário Soares é hoje - ele e alguns outros, mais recatados - o Partido Republicano. Sempre presente na politica portuguesa, onde tem voz cativa, vêmo-lo do alto da sua condição de conselheiro de Estado apostado essencialmente na desestabilização. Com afirmações tão desilegantes quanto as que proferiu agora sobre a saúde do Governo e as ambições do ministro Portas. Esquecendo toda a sua vida - a sua voracidade pelos cargos de chefia - e os anos afortunados de passeio nos boulevardes parisienses entre ses amis, forró a que insiste em chamar exílio (subvencionado pelo Colégio Moderno, claro), forró esse em terras lusas depois prolongado na "onomatopeia" de Nafarros.

Aparentemente sem, ao menos, disfarçar uma jovialidade ignorante de uma Nação posta no prego, a calcorrear as ruas na procura de quem lhe compre o relógio ou a derradeira peça de ouro herdada dos avós. Algo de que o dito exílio soarista jamais careceu.

 

 

Espelhos

João-Afonso Machado, 08.10.12

O ribeiro ressuscitou depois de tanta podridão a sujar-lhe o nome, talvez a jactância de se chamar Rio Pelhe, um antigo manancial de trutas ao dispor de nossas excelências.

Entre o sonho e a esperança vivem agora essas agitadas visões pintalgadas. Quem sabe?, um dia, outra vez... Mas o presente já respira pelas guelras de milhares e milhares de alevins. Peixe menor, é certo... Mais as legiões das rãs, torrentes de mergulhos a fugirem-nos debaixo dos pés, o voo azulado das libélulas e a instalada certeza da cobra-de-água para muito breve.

E o espelho falando a duas vozes no silêncio da tarde caindo. Quando tudo se dá as mãos e as margens se unem e se olham nos olhos.

 

 

Puerilidades

João-Afonso Machado, 07.10.12

Decorre ainda a reunião do Governo da República preparatória do Orçamento de Estado para 2013. A mesma teve o seu ínício às 9h30m de hoje, dia 7 de Outubro, e é de crer que conclua por todo este mês. Preferencialmente sob a égide de um só Executivo, o de origem, e não de um par de gémeos nascidos a bordo desta ambulância perdida a caminho das urgências hospitalares que as circunstâncias recomendam.

Até porque não há qualquer atraso a desculpar: a costumeira manifestação contra não somava mais do que dez matinais participantes - quase um por ministro e com criançada diversa inclusa, não constituindo, por isso, uma especial ameaça à integridade fisica dos visados. Acresce ainda o enternecedor carinho com que todos nós, contribuintes, continuamos a desejar boa viagem aos nossos governantes em Mercedes e BMW's magníficos, uma viatura e o respectivo chauffer por cabeça.

Assim continua a tradição a ser o que é. Lamentavelmente, não há meio de surgir alternativa credivel a Passos, Portas & Cª - sem dúvida limitada.