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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Até aos sábados...

João-Afonso Machado, 15.10.12

Era inverno, não amanhecera ainda e, emborcada a cevada e o "mata-bicho", o Manuel fazia-se ao caminho. Literalmente ao caminho, tortuosa colecção de buracos e lama por onde chegaria à estrada nacional. De porta a porta seriam quase uns quinze quilómetros e o seu destino era a empresa de cimentos onde se empregava.

Chovia torrencialmente. Uma chuva tocada pelo vento, e o Manuel envolto em plásticos, presos por atilhos às suas canelas, um saco enfiado no pescoço, cobrindo-o, e outro, menor, a tapar-lhe a boina. E as mãos, sem luvas, firmes no volante da bicicleta. Da sua pasteleira roda 28.

Antes da partida, o derradeiro cuidado: o dínamo a roçar a roda dianteira e uma luzinha tímida tremelicando rampa fora até sumir na curva lá em baixo. A aba da bolsa onde transportava a marmita com "o comer do meio-dia" dobrava-se sobre o varão do quadro daquela sua cavalgadura a pedais.

Regressaria só à noitinha, encharcado, arroxeado, estafado, a pedir o presigo e uma malga de vinho que ia toda de uma golada só. Depois, o quente da cama, logo de seguida, e umas horas de sono até nova madrugada. Salvo se amanhã fosse domingo.

No verão, o sol abrasador encarregava-se de o acompanhar ao trabalho e de voltar para casa com ele. Longas filas de ciclistas, nesses dias maiores, ofegavam naquela subida imensa da estrada para Braga, apeados, encurvados, segurando as suas pasteleiras pelo guiador, enquanto sonhavam com a próxima descida, ainda tão distante, e duas rodas a zunir embaladas, levando-os ao colo em vez de lhes tolherem os pés e as pernas já estenuadas.

Assim decorreram muitas vidas, já tão no esquecimento, de labuta diária nesses anos em que sequer sobrava margem para a doença, somente para morrer. O Manuel já lá vai, coitado. Mas foi dos que ainda chegou a provar o luxo das motorizadas, a Casal de duas mudanças da sua velhice.