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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Do cunhado do meu amigo

João-Afonso Machado, 13.08.12

Há muitos, muitissimos anos, um tractorista daqui confidenciava-me que gostaria de ter sido padre. Ante a minha estupefacção, justificou-se - era para poder ouvir, em confissão, os pecados das mulheres!

Ocorreu-me tão remoto episódio quando me apercebi quão bom é ser amigo de um cunhado de um alto dirigente partidário. Como se verifica comigo. Extraordinário o rol de faltas, erros, pecaminosas acções e omissões que - sem perigo de excomunhão - ontem me foram reveladas. Não tanto em ambiente de sacristia, mais no de bastidores de teatro.

Das vicissitudes na formação do Governo; das capacidades dos seus membros, analisadas insuspeitamente "por dentro"; do que é e do que se diz que é; das expectativas dos próprios governantes quanto ao futuro...

No fundo, nada que nós não soubessemos já. Como o antigo tractorista tão bem conhecia os ditos "pecados das mulheres", maxime os que elas cometiam com ele, "casanova" reputadíssimo. 

Mas a confissão tem realmente outro sabor. Talvez porque nos leve a crer, vagamente, no arrependimento dos infractores...

Enfim, a Grécia será mesmo chutada para fora da Zona Euro. E Relvas ainda dará que falar antes de sair do Governo...

 

 

Não poderia escrever sobre a Leirosa

João-Afonso Machado, 13.08.12

O mar fundo e furioso atemorizava. Havia que escolher cuidadosamente o local para estender a toalha, entre os restos do pescado e a bosta dos bois atravessando as areias o dia inteiro, a rebocar as redes sob a batuta do varapau.

Há quantas décadas? Quantas décadas demorarão a esquecer esses momentos de medo e nojo e comiseração emoldurados numa ânsia de Agosto que se arrastava o ano inteiro, mês após mês?

Porque, mais paulada, menos paulada nos animais - quantas pauladas não levamos todos, costumeiramente? - era sempre a surpresa da rede prenhe aflorando na rebentação, o gesto autoritário do mestre da embarcação, ordenando esperassem pela sua navalha, ela revelaria ao mundo os resultados de mais aquela ida ao mar. E assim cortadas as malhas, aí estava o carapau, a sardinha, a chegar-nos a casa ainda vivos, recebidos de braços abertos à porta da cozinha.

E a praia, pasto de conversa, as tardes na esplanada, entre amendoins e umas imperiais, os campeonatos de matraquilhos, os cigarros de marca americana arranjados na gente da terra, com o suave aroma do contrabando...

A noite eram os passeios aos muros da escola, itinerários de namoro, e a casa velha onde sempre entusiasticamente tocaram os Doors, Emerson, Lake & Palmer, Leonard Cohen, Moody Blues, Crosby, Stills & Nash, Jethro Tull, Neil Young...; e onde se dançava e se sonhava e se amava... e se chorava copiosamente, assim Setembro batesse à porta para entrar.

Ontem os barcos não foram ao mar. E são já os tractores a puxar as redes. Esplanadas? Todas com a lotação esgotada. A animação musical ficara a cargo do Marco Paulo.

Não, jamais poderia escrever sobre a Leirosa.