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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 18.06.12

A tarde ia-se apagando. Mas a calçada guardava muito consigo o calor de um dia inteiro de quase verão. E isto de subir à Graça montado nas pernas... Era já o desânimo, quando a vi descendo muito lampeira, saltitante. Vitaminei-me pelos olhos e saudei alegremente.

Transbordava boa disposição. Muito dada à conversa, ali mesmo desenrolou por inteiro o tema da actualidade: a fabulosa vitória sobre a "laranja mecânica". Imparável, diziam "eles", e afinal cilindrada pelos nossos, tão injustamente acusados de "pêras-rocha"!

E, com a jovialidade de sempre, descreveu o seu estado de espírito no passado mais recente: o temor, a apreensão e a angústia, depois a esperança, a certeza, a euforia. Ainda agora

- Ah!, gloriosa bandeira!,

parecia a alma estoirar-lhe à vista do estádio imenso, os cachecois, os estandartes, as barretinas, as faces lusas pintadas de encarnado e verde. E os golos do Cristiano e aquele outro muito giro, que joga tão bem, o Fabião, não é como ele se chama?

Mantive um silêncio prudente. Dou-me mal com o "encarnado" (o vermelho, entenda-se) e com o verde e, se algum dia cercado por essas ululantes e garridas tribos urbanas, antropófogas, sempre me declararia cidadão belenense - portanto de um país neutral, como a Suiça - ou mesmo habitante da Tapadinha, a cujo Atlético ninguém quer mal. Dei rédea livre ao entusiasmo da minha amiga.

Assim fui sabendo do eco estrondoso do futebolistico triunfo português. Ela e os seus comparsas, após o jogo, haviam rumado uma casa de fados que lhes tomara a noite toda, madrugada fora. Até porque a lendária Amália tem hoje sucessoras muito à altura, raparigas belíssimas (isso eu já percebera), vozes magníficas, interpretações fieis do nosso sentir, das nossas emoções...

- Portugal!, eterno Portugal!,

exclamou num súbito acesso de patriotismo. Vi-a transfigurada. Milagre do futebol?, façanha do fado? - perguntava a mim mesmo, quando lhe topei os pés, tão ágeis, tão vivos, contra o usual calçando umas sapatilhas. Uns "ténis", no dialecto local. Incapaz de suster o meu espanto, ainda inquiri:

- Não me diga a menina que resolveu ir a Fátima?!

E, acreditem ou não, o seu sequente silêncio nada, absolutamente nada, me esclareceu.