Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Quando tanto depende dos pés

João-Afonso Machado, 11.06.12

Há quantas horas marchamos? Um olhar esquivo cai sobre a interrogação e o pensamento, dando-se conta da impertinência, ala-se e poisa junto ao tordo, umas ramagens além. A competir com ele em trinados para o ar.

Porque todo o cuidado é pouco e a maceração dos pés tende sempre a subir à cabeça. Seria o fim, então! A mente com bolhas, dorida, acossada por quantas pedras soltas povoam os caminhos da vida... Daí à desistência seria o tempo de um breve descampado sob os efeitos do sol ardente ou da chuva. Ou a inconcebivel situação de um par de botas calçado nas orelhas.

Durante muitas e muitas horas, o belo e o horrendo, o casario e o arvoredo, os riachos ou a secura, toda a muita fauna do caminho, vertebrada ou invertebrada, embalarão o espírito, transportá-lo-ão ao imaginário, nos confins do reino feliz da curiosidade. Ou da oração, para os que já dominam esse dialecto. Deixando às pernas e aos pés o encargo de suportarem sozinhos as agruras do terreno e da cronometragem. Conforme a directiva inicial: respiração funda e lenta, costas direitas e passada larga - pausada mas larga, sobretudo nas subidas, onde existir é supostamente mais dificil.

Assim se caminha e se fotografa o ritmo que nos calha viver.

 

 

Partindo de Santiago

João-Afonso Machado, 11.06.12

São boas as frases curtas lançadas como um lema, um desafio. E sem se expandirem em grandes considerações - breves, humildes mas argutas, a deixa que fica. O resto será connosco, com a nossa criatividade, mesmo com o nosso empenho. Decerto com um pouco mais do que rendilhados, sentimentos debitados como a água de uma torneira aberta rotineiramente.

Assim ouvi - «a aventura de partir». Estava dado o mote, fechada a torneira dos lugares-comuns. Partimos. Numa leva de 80 almas - almas boas, dedicadas, todas elas, também, na aposta de descobrir e trazer consigo algo de novo. Excelentes companheiros de viagem! A pé, durante cerca de 100 kms por montes e vales. Animados de um espírito de entreajuda e de uma boa-disposição com raízes fundas, atentamente irrigadas e fertilizadas. Sobrou tempo para muito, acima de tudo para viver a amizade hora a hora, minuto a minuto, nestes dias inteiros de marcha.

Foi, assim, a "aventura de chegar" a Finisterra. Com os corpos macerados, quanto libertos os espíritos. Fale cada participante de si, e da sua experiência pessoal.

De olhos postos na Natureza, sentido a aproximação do promontório, o fim da terra justamente onde principiaria o sem-fim do horizonte, ali a dois passos da intemporalidade. Deste reeencontrar do Criador através das belezas da Criação. Na "recta orientação" do voo e do cantar das aves para deleite dos meus sentidos. No muito que ficou por observar, no borbulhar das ondas adivinhadas para lá do nevoeiro, enfim chegados ao oceâno. E na fé de que a Fé é e não nos abandona.