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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Insólita tarde de sábado

João-Afonso Machado, 02.06.12

Que grande molha, Dr. Rúben! A lembrar aqueles invernos húmidos até aos ossos em que o Dr. Rúben, pouco calhado no andar, se deixava ficar, as mãos nos bolsos e a espingarda ao ombro, debaixo de qualquer pinheiro, esperando o gaio imprecavido. Pois hoje, mesmo à chuva - esta morrinha a cada passo a pingar grosso - mesmo em tão despropositado sábado, lá mandei as pernas atravessar o vale e subir aos seus domínios, sempre iguais, sempre hospitaleiros.

Mas há-de perdoar lhe diga, Dr. Rúben, que pena o alcatrão assassino da calçada! Aí onde está, entre os justos, como consentiu em tal alarvidade o maior causídico da nossa comarca? Sequer lhe ocorreu, que humilhação para a sua "arrastadeira" negra, o mais vistoso automóvel da freguesia?

Tenebrosos propósitos, estes da sua República, que a minha Monarquia jamais empreenderia. E por falar nisso, Dr. Rúben, que tal a Eternidade do Reino dos Céus? Vamos, confesse, o nosso Abade afinal tinha razão, hã?! Somente - digo eu - o Inferno não é aquele pavor tão vasto onde o Dr. Rúben não aceitava a Religião enfiasse este mundo e o outro de gente atulhada de pecados mortais. Mas daí a questionar Deus nosso Senhor... Valeu-lhe, Dr. Rúben, a sua ciência, a sua bondade, o seu prestígio. Não fora assim, o nosso Abade há muito lhe teria esticado o dedo da excomunhão.

Ocorre-me agora, Dr. Rúben, o seu passamento data já de 1966. Era um miúdo mas a memória tudo registou, ainda os caixões seguiam empoleirados no carro dos bombeiros, e as coroas de flores neste como trepadeiras. E a Avó guardava em si a maior confiança, no seu advogado, sempre respeitador, sempre dedicado e eficiente. Por isso também a consideração com que este rapazelho jamais o esqueceu e desculpará, Dr. Rúben, tão longa parlenga, só porque a chuva de hoje me levou à soleira da sua porta.

Os meus cumprimentos, Dr. Rúben. E a continuação de uma boa tarde. Resguarde-se, olhe lá o seu reumatismo. Ah!, já esquecia - recomendações da Avó, também.

 

Felizmente foi falso alarme

João-Afonso Machado, 02.06.12

Eu revia as provas do livro, e organizava as notas a remeter ao editor, quando o telefone tocou. Do lado de lá, uma voz aflita, alguém sentindo-se mal, já de porta aberta a caminho do hospital. - Adeus, adeus!, cortou nas minhas alarmadas perguntas, como quem se despedia do mundo.

Por duas vezes recorri ao telemóvel e marquei o número, na expectativa de alguma notícia, talvez do enfermeiro, uma mão no pulso da vítima, ou ajustando-lhe a máscara de oxigénio, a outra no aparelho, com novidades e recados, e o olhar fixo nos medidores do ritmo cardíaco.

Mas... nada! Silêncio total. E erguendo-me a custo de cima do meu lendário egoísmo, enfiei-me no carro e vim ao hospital, a perguntar se uma pessoa assim e assado tinha entrado nos serviços de urgência.

Negativa, a resposta.

É bem certo - como esquecê-lo? - já vislumbrara na Net manifestações de vida. Quero dizer: o mal-estar fora comunicado ao mundo e o mundo acompanhava comovidamente o mal-estar e prescrevia receitas prá cura. Logo, estava tudo em ordem - pensei cá com os meus egoístas botões.

Daí tenha passado por sua casa. Onde depressa me foi apontada mais uma dupla manifestação do meu hediondo egoísmo - porque me esquecera de dizer uma mentira piedosa, porque não trouxera o que sobrara do champô.

Vim embora. Acabrunhado e sempre mais encafuado neste insanável egoísmo. Sequer reflectindo sobre se a cadela há-de querer uma ou duas codornizes. Apenas - e impiedosamente - centrado nos males quotidianos. Até aos sábados, caramba!