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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A Páscoa nas estradas

João-Afonso Machado, 09.04.12

Os números são, seguramente, de há décadas: um morto e os costumeiros "feridos com gravidade". Um morto apenas, queira Deus, em contas finais. Contrariando as consecutivas hecatombes das quadras festivas. Quem se fez à estrada neste último fim-de-semana terá entendido porquê.

O trânsito era visivelmente inferior. A velocidade também.

Percebe-se que os apertos em que vivemos tenham levado os portugueses a sair menos de casa. Já não assim quanto ao resto. A prudência - o andar devagar - devia resultar do bom-senso e do respeito pelo próximo. Não apenas da vontade em economizar combustível. Mas foi sobretudo isso que aconteceu.

Todos ganhámos, é certo. Pena é que sejamos mais poupados no dinheiro do que expansivos em civismo. Será caso para apontar à "crise" pelo menos uma vantagem vital...

 

 

Amêndoas não coloridas - não!

João-Afonso Machado, 07.04.12

Foi no correr de uma qualquer conversa já sem rumo, completamente desnorteada:

- Eu até tenho aqui umas amêndoas...

Não era verdade! Não tinha amêndoas, não senhor. Onde as arranjaria, às cores, com todas as cores, como mandam os mandamentos, assim parda de falares, tropeçando nas frases, já tão enrodilhada em reticências.

Não era verdade, era mentira. Verdade era aquele casaco cinzento e a avenida onde ele se camuflava, inferno de ruídos unícromos. Quando muito aquela serpentina esquecida desde o carnaval nos ramos das tílias do passeio: desbotada, enrolada no folhame, aguardando apenas a vinda dos podadores. Lixo!

Na inumanidade da avenida não há amêndoas. Nem Páscoa. Não é por causa do supermercado que o impossivel deixa de o ser. Por isso os dizeres fugitivos, as promessas vãs, a ressurreição de todos os medos somente. E um saquinho de qualquer coisa a fingir.

Assim a cidade fugiu da avenida e veio cá para baixo, onde há vozes e almas e não apenas sorrisos saltitados em frente do espelho. Para sempre. Lugar à vida e ao colorido de todas as amêndoas que nos adoçam o coração.

Já a avenida mais não é senão uma recordação, o lúgubre poiso dos fantasmas.

 

 

 

 

Memórias vilacondenses (XI)

João-Afonso Machado, 07.04.12

«(...) o ora denominado "Palacete do Conde de Riba d'Ave". Nunca dali vi sair nenhum conde, somente nuvens de crianças, as participantes nas "colónias de férias" que, antes de todos, tomavam o rumo da praia. Em filas de dois, devidamente escoltadas e fardadas de bibes iguais. A manhã passavam-na em sossegada brincadeira, até que chegava a hora do mergulho - uma a uma, de vontade mais ou menos livre e espontânea, eram entregues ao Baltazar, banheiro de ofício vai para 50 anos, que, tapando-lhes nariz e boca, as enfiava no Oceâno, de onde emergiam sacudindo as penas, com um ar não sei se de grande contentamento (...)».

 

(Vd. Em Vila do Conde descendo a Av. de Bento de Freitas, ao longo de algumas gerações, in O Tripeiro, 1993, pág. 238 e segs.) 

 

 

 

Um cometa vindo de não tão longe

João-Afonso Machado, 06.04.12

Mandou-a parar o vento a fustigar-lhe a cabeça, a quilha quase desnudada. Ordens do Tempo, disse-lhe o vento, e a gaivota estremeceu e piou. Mas não fugiu. Ali ficou como não contrariando o Destino.

Seriam três horas da tarde, essa hora única da História e das almas em que o impossivel mentiu e foi acreditado. A gaivota de asas suspensas nos ponteiros do relógio, Cronos, esse pagão, querendo-a uma cruz, adorno do espaço. Dizem uns, chorou lágrimas de sangue.

Mas não fugiu!

E o uivo do vento foi o silêncio dos espiritos durante dois dias. Quando a força da razão e a justiça dos justos sopraram de través e a gaivota partiu no embalo, asas sempre em cruz, na rapidez imensa do cometa. Sem mais deixar de ser ela, até ao fim do derradeiro século.

 

Profissão de fé

João-Afonso Machado, 05.04.12

Por muitas voltas que o dia dê em torno das suas horas e dos seus lugares, no silêncio destes tempos de espera dos sinos dominicais, acredito - o momento acontecerá. Logo mais, não sei como, apenas onde. E para quê - há um olhar a necessitar de confiar na mansidão do outro, posto diante de si.

Então sim, sobrevirá amanhã. Vergado ao peso da bondade dos espíritos.

 

Esta minha arma

João-Afonso Machado, 04.04.12

Lembro-me dela confiada ao feitor. Circunstância que hoje não entendo bem. Que deixei de entender quando me disseram que era a arma do Bisavô. De fabrico belga, lindissima, idosa, quase primitiva no seu funcionamento. Eu era muito miúdo e conheci-a no canto bolorento de um quarto húmido, com meia-dúzia de cartuchos ao lado, se calhar apenas para afugentar cães vadios ou falar mais alto em noites alvoroçadas sabia-se lá porquê.

Depois o feitor morreu. Veio um sujeito substitui-lo, mas a verdade é que o lugar nunca seria dele. Em pouco tempo se determinou superiormente a sua saída. Foi quando a espingarda, peça magnífica, reingressou no armário bélico do Pai.

E, completamente à margem da lei - desta lei que nunca foi nossa - nos meus 15 anos passou a ser do meu uso. Com ela cacei o primeiro coelho, os primeiros tordos.

Os anos correram, a arma levou pancada - não minha, que a limpava sempre, escrupulosamente - deixou de funcionar e quedou-se, tão triste, num canto esquecida. Até o Pai me a oferecer. A arma do Bisavô. Oriunda de Liège, canos longos de arma pombeira, hoje peça de colecção. 

Que eu miro e remiro todos os dias, aqui no meu exílio.

 

Mais uma da "ética republicana"

João-Afonso Machado, 04.04.12

Terá sido no dia em que informou os portugueses de que os portugueses estavam cada vez mais afastados do Governo? Partindo depois, à desfilada, o grande Nafarros, na ânsia de catequisar outro canto do nosso mundo?

O facto é que a Brigada de Trânsito detectou o infindável messias nas proximidades de Leiria, em plena A8, circulando a 199 km/h. Num Mercedes Benz S350 4Matic, propriedade da Direcção-Geral do Tesouro e Finanças, uma dispicienda cedência cá da gente ao invencivel paladino da democracia.

O qual, segundo consta, não simpatizou com a intervenção dos agentes da autoridade, esses audaciosos. Declarando que «o Estado é que vai pagar a multa» (um peculio de €300,00), deixou o seu motorista sem carta de condução, apreendida. O denodado defensor da causa do povo ter-se-à esquecido que existem folgas e familias e passeios e domingos e pic-nics, assim colocando o condutor apeado, quer em funções, quer nos seus momentos de lazer.

Comentaram os militares que intervieram na operação "intercepção do susceptivel paxá", este foi «bastante malcriado». Sim, sim, Mário Soares.

Não deve ter sido. Nós é que estamos mal habituados. Atavicamente mal habituados, incapazes de compreender a "ética republicana".

 

 

 

Dois estilos. O mesmo lodaçal

João-Afonso Machado, 03.04.12

Não é a primeira, nem decerto será a última vez que o Prof. Marcelo nos fofana - karamba! - com saberes que nos deixam bambos. Recentemente, trouxe à colação a «golpaça com a revisão dos estatutos» perpetrada por António José Seguro. Visando, neste moralizante mundo político, aniquilar o seu putativo rival Costa.

Se calhar há verdade em tudo isso. Seguro não segurará o seu partido de outro modo. Aquelas sobrancelhas eternamente arqueadas não gesticulam, não prometem, ou não mentem, à boca cheia, e o seu apendice nasal não será do género de crescer por aí fora, qual galho de eucalipto, com tudo quanto é ave a nidificar nele - e ele despudoradamente aumentando sempre em dizeres os mais díspares e mais disparatados.

Seguro é mais cauteloso e (para o que não se exigirão qualidades humanas notabilíssimas) provavelmente mais sério. Sem prejuizo de necessitar sobreviver na selva socialista sempre sob a ameaça do canibalismo maçónico.

De modo que um pequeno artifício estatutário para empurrar um adversário borda fora não constituirá propriamente um pecado mortal. Pelo menos naquele lodaçal e face à sempre emergente sangria entre caimões esfaimados.

E depois, esta é uma semana demasiado parada, urgia animá-la. O Prof. Marcelo adivinhou-o e promete mais, mantém o suspense: haverá outras revelações já no próximo domingo.

É essa, de resto, a minha única razão de espanto: como não previu o Professor que o próximo domingo é a Páscoa? Quando é suposto parar um bocadinho a intriga política...

 

A Quinta de Santo Inácio (Avintes)

João-Afonso Machado, 02.04.12

«(...) O Douro corre ali em baixo (...). E já em 1702 é sabido que a propriedade a adquire George Maynard da Silva, inglês, comerciante opulento (...) quando decidiu encabeçar a quinta com edificação que emparelhasse com os nobres solares portugueses, rematou-a com capela com evocação condigna, da evocação de Santo Inácio de Loyola. (...) Roberto van-Zeller é um empenhado na agricultura (..). Dos antípodas vinha sobretudo o eco chamativo dos eucaliptos - e há correspondência curiosíssima trocada entre van-Zeller e cultivadores australianos (...): sementes para cá, a nossa couve-galega, em troca, para lá (...).

Por isso, os mais avantajados exemplares de eucaliptos (...). São dos mais antigos existentes em Portugal.

(...) o parque zoológico (...): reptilário araras e papagaios, lamas, emas, aves aquáticas, tucanos, aviário tropical, linces, reino dos macacos, grous, lemures, rapinas, faisões, insectário, cangurus, pantera das neves (...).

Antes do regresso, uma breve espreitadela ao horto, à "quinta pedagógica" (...). Norteiam so seus proprietários três objectivos a alcançar com este empreendimento: rentabilizar a casa e os seus 50 hectares de terra; enchê-la de vida e torná-la atractiva para a Família, no seu conjunto; realizar a funçao social de contribuir para o desenvolvimento e cultura das populações circundantes e de quem mais os visita».

 

(Vd. A Quinta de Santo Inácio de Fiães, em Avintes, in O Tripeiro, 2002, pág. 224.)

 

 

 

1 de Abril - o Dia da Verdade

João-Afonso Machado, 01.04.12

Não é pela quantidade de verdades, pela pluralidade de sujeitos, que a mentira vai regendo a orquestra da vida. Seria demasiado simples, todos morreriamos laureados de mentirosos... Porque subsistirá sempre um abismo entre a crença e a realidade.

A mentira é enganosa. Dirigida aos outros. Palavrosa na ânsia de se auto-justificar. E, por isso, a querer estupidificar os destinatários, mistificando o real.

O primeiro dia de Abril será, assim, o mais verdadeiro dia do ano. A ninguém apanhando desprevenido. Honestamente. São 24 horas de predisposição para a brincadeira. Com direito, até, a posterior esclarecimento, não vá os distraídos se esquecerem da data.

Tudo para dizer que convivemos, inevitavelmente, com a mentira resultante, em regra, do medo de encarar a realidade. Aquilo que é, cruamente é, sem margens para nela se leia que poderá ser.

E na desconfiança em que a mentira nos arregimenta, lancemos mãos às pedras. Como se de bóias de salvação se tratassem, apedrejemos a falsidade com a sua ausência de intenções maléficas, porque não há manigância que resista à realidade delas emanente: ruinas, se o são; lugares de culto, asseados e preservados; ameaças de descalabro ou queda; enobrecidas ou aviltadas, deixadas aos musgos ou deles escanhoadas.

As pedras são o silêncio, a ausência de falácias. Só por isso não mentem. E suportam facilmente todas as partidas primo-abrilinas. Com o que se poderia arranjar mais um dia  - o 1 de Abril - comemorativo, não propriamente das curiais questões culturais, políticas, "humanistas", enfim. Apenas da felicidade resultante de o nosso próximo, de quando em vez, nos merecer credibilidade.

 

 

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