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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Ultra-pesado

João-Afonso Machado, 19.04.12

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Ignoro pormenores. Apenas ouvi o depoimento de alguns portugueses residentes na Guiné-Bissau. Nenhum pretendia arredar pé. Todos sorriam ante as câmaras da televisão. A ameaça iminente de uma chacina estava muito longe das suas palavras e das suas expressões. E os jornais já vão (outra vez) esquecendo a nossa antiga colónia. Entretanto houve futebol. Mourinho e CR7 tão mal sucedidos como Alpoim Calvão, in illo tempore.

Sem embargo, a Pátria gloriosa preparou missão temível de salvamento. Pelas minhas somas, eventualmente erradas, uma fragata, uma corveta e um "reabastecedor" (gloriosamente baptizado como "Bérrio" - ah!, grande Gama!), mais o helicóptero, o avião P-3 que já esvoaça, as lanchas, quiçá as moto-4 irrompendo nos paúles de Bijagós...

Tudo pressupondo um avassalador ataque anfíbio e a evacuação dos nossos compatriotas. Os quais, quanto sei, insisto, não querem sair de lá, somente porque não se sentem em perigo.

A missão militar custa ao País qualquer coisa como 15 mil euros por dia. Nem se discute a sua validade desde que um português, que seja, esteja ameaçado. Mas existirá alguma ameaça? Eles - os nossos - dizem que não.

E, entretanto, cá pelo burgo (digamos assim), falta com que motorizar a polícia, os bombeiros, os hospitais, as instituições, genéricamente, e quem as serve. Porque não chega para a gasolina e para os mecânicos.

Em suma: cada vez percebo menos. Não de Portugal, mas do Estado agora por extenso denominado "República Portuguesa".

 

 

 

 

Memórias vilacondenses (XIII)

João-Afonso Machado, 17.04.12

Na esquina da Bento de Freitas com o jardim, era o mini-hiper-mercado da Praia. A salvação da comunidade. O "Sr. Mário", está tudo dito. Um espaço com menos área do que pé-alto, e cascatas de rolos de papel higiénico jorrando sobre bolas de queijo flamengo, garrafões de lexívia à mistura com garrafões de vinho, cêras e patês, cerveja, venenos, azeite, uma amálgama engarrafada, sacas de tudo quanto há - arroz, massas, pós suspeitos - graxa e conservas, enfim um labirinto indecifrável para todos menos para o Sr. Mário, a sua Sameirinho e talvez mais uma ou duas previlegiadas ao seu serviço.

Um balcão caprichosamente curvilíneo não bastava para os muitos clientes da casa. A espera vinha até cá fora ao passeio. Felizmente a chuva de Vila do Conde era um mito derivado do nevoeiro, uma simples questão de camisolas apenas.

O patrão - o Sr. Mário - não levantava o rabo da caixa registadora, sempre de lápis na mão. Quais calculadoras! E conhecia toda a gente, reverencialmente tratava toda a gente em mesuras ao mais puro estilo das côrtes setecentistas. Anunciasse eu o nome da minha querida Avó e levaria a arca inteira dos gelados Olá!, se a pedisse... Mas não, estupidamente tinham-me ensinado que não...

Já posteriormente mudou para espaço maior. Deixou aquele recanto, o encanto daqueles armários forrados a produtos, as janelas onde desbotavam ao sol bisnagas e latas, sei lá o que mais. Novidades dum tempo de que não sou testemunha presencial.

Antes, porém, era ali, paredes amareladas, os trocos de tostões dados em espécie, digo, em rebuçados, mais os recados à Ex.ma Senhora minha Avó. Numa multiplicidade de vénias, erguendo-se mesmo à despedida, ligeiramente, na sua cadeira diante da registadora.

Conhecedor profundo da comunidade veraneante, houve um episódio tremendo de lapso ou distração. Fenómeno estranhíssimo de que foi protagonista um reputado médico lisboeta. Isto quando andavam em moda as calças claras e umas camisolas de gola alta (as senhoras recordarão o tecido...) usadas no estio - sobretudo no vilacondense... - e os blazers de trespasse, botões dourados com âncoras em baixo-relevo. Ignoro o que o Dr. António Dias-Costa terá comprado lá. Sei apenas que, aprestando-se ao pagamento, perante o seu traje, o Sr. Mário sempre respeitoso, levantou-se do seu poiso na registadora e inquiriu, quase em sentido:

- Fará V. Ex.cia o favor de dizer, Senhor Almirante!

 

 

Primarismos republicanos

João-Afonso Machado, 17.04.12

«Juan Carlos Alfonso Victor Maria de Borbón y Borbón - Duas Sicilias, Rei de Espanha (e ainda, a crer nos seus titulos, de "reinos" como o de Jerusalém, de Nápoles, da Sicilia, da Sardenha e das Indias Orientais e Ocidentais...), decidiu, cansado dos entediantes afazeres da realeza, divertir-se. E que melhor maneira de se divertir do que pegar numa carabina e matar elefantes!».

Não fora a alusão a nomes e factos que indubitavelmente nos situam no Presente, dir-se-ia mais um excerto retirado de uma crónica de algum primário jornalista ou politico primo-republicano. Mas não, o autor é Manuel António Pina que assim ontem discorria na sua coluna diária no JN.

E não se ficou por aqui. Depois da alusão - de péssimo, deplorável gosto - ao acidente que vitimou o Infante espanhol, irmão do Rei Juan Carlos, o escriba Pina rematou indignado com o que os contribuintes do país vizinho pagam à Casa Real, um qualquer despropósito monetário que «dá para muitos safaris».

Não nos desenvencilhamos, fatalmente, desta República peçonhenta e demagógica, enraizadamente maldizente e mesquinha!

Como se nunca a rapaziada socialista de cá tivesse cavalgado tartarugas ou dromedários. Nem passeado com a filharada (e uma carabina?, uma portentosa máquina fotográfica?) pelo Quénia e outros exóticos destinos. Como se há muito não nos habituassemos às especiosas comitivas presidencias riscando os céus em aviões por sua conta, a expensas nossas, terrenos desta terrinha.

Urge a Espanha convoque Manuel António Pina para colaborar no imprescindivel termo da tirania. Simplesmente, não se sabe porquê, os espanhois não questionam o seu Rei, sobretudo em dias de crise como são os actuais. Juan Carlos tem consigo toda uma Nação de si tão dada a retalhar-se em uma série delas. Enquanto metade do nosso Portugal "bota abaixo" o Chefe do Estado republicano e os restantes lá o vão desculpando ou enaltecendo.

E quem poderá Pina apontar como exemplo de parcimónia, comedimento no despesismo da República portuguesa? Salazar?

 

 

 

Assim vivemos...

João-Afonso Machado, 16.04.12

Havia um cheiro passeando através dos anos numa bicicleta vermelha (ou talvez azul, maior, sem guarda-lamas), um cheiro que me chamava através de recordações onde a minha memória desfalece. Culpei-a impiedosamente, esquecendo não podia ser de outro modo... Lembrar-me de quê, nessa época dos calções, em que iguais significava a mesma idade, a mesma bola de futebol? Mas fui lá, corri a rua, lembrei os bifes com batatas fritas à terça-feira, conquanto o cheiro fosse outro. Nem sequer o da Glória, óculos pesadíssimos de aros de massa, vagueava a década de Sessenta em vidas principiantes... A Glória, um primor a servir à mesa, outra faceta do Passado...

Corri a rua, esbarrei na sua descontinuidade. E percebi, enfim.

O cheiro estava lá ainda. Não eram os jardins ou os almoços. Não era a brincadeira despreocupada dos quase dez anos. Muito menos o local preciso de uma habitação ainda hoje desconhecida.

Enchia-se a rua dessa menina de então. Não sei quem. Sei-a agora, outro cheiro do cheiro de sempre. Digamos - perfume. O perfume que sorvi em tempos escassos, actuais, queria eu eternos. Por acaso, efémeros.

Não faz mal. O que foi, foi para mim intensamente. Plenamente. Até chegar o momento da viagem. O mundo, para tantos, é feito disso mesmo: de viagens. Através da alma, rompendo o coração, sem mapa na mão, apenas a intensidade do querer. Há mais ruas em todos os recantos de todas as esperanças. Desde a infância, assim será sempre. Sem mágoas. Sem semanas perdidas, somente mais a pérola de uns dias com o que de bom eles ofereceram. Por tudo, obrigado, menina longínqua que foste, mulher que já lá vais.

 

 

Tengarrinha, sobre a liberdade de imprensa

João-Afonso Machado, 14.04.12

José Manuel Tengarrinha, o inesquecivel lider do inesquecível MDP-CDE, o satélite do PCP ou o poiso dos comunistas com "pés de galinha", como então se dizia, há já muitos anos trocou a Política pela Universidade. E agora, jubilado, quase octogenário, pela escrita dentro da sua especialidade: a História. Deu hoje uma curiosa entrevista ao Público, onde, a dado passo, afirma:

«Desde o liberalismo, a imprensa foi um dos pilares da construção da sociedade democrática». E:

«Ponho em dúvida que a imprensa seja hoje um quarto poder, não lhe podemos atribuir a liberdade que é indispensável para a formação da opinião pública».

Tengarrinha não questionará, decerto, que durante o quase meio século da II República muito mais assim foi. Nem os desmandos do Partido Democrático afonsista relativamente aos jornais conotados com os seus adversários, fossem eles evolucionistas, unionistas, monárquicos, católicos...

Por exclusão de partes, assim somos chegados ao período áureo da liberdade de expressão e escrita. França Borges, o director de O Mundo, onde quer que esteja (ele que jurava não estar em lado algum depois da morte) poderia confirmá-lo. Se a História actualmente ensinada de forma imparcial o consentisse.

 

"Saberás..."

João-Afonso Machado, 14.04.12

Saberás ouvi hoje o discurso do silêncio.

Longo de horas e gestos,

sorridente de urros e protestos. Calado

na força da razão

quanto irado de lamentos.

 

Saberás que eu sei

todos os movimentos do coração

e muitos argumentos contei

entre as palavras e a exaustão.

 

Saberás ainda as abreviaturas do amor

e as vozes de regresso, o medo e a paixão,

momentos e aventuras,

 

- frases duras?

- antes carne rasgada pela dor, tormentos

 

que nunca saberás apenas…

por não seres capaz.

 

Memórias vilacondenses (XII)

João-Afonso Machado, 13.04.12

Não me parece alguma vez um veraneante de Vila do Conde pagasse bilhete para ver as corridas de automóveis. Aliás, nessa época, o ponto alto das férias. Mas, ou porque vivessem dentro do perímetro do circuito, ou porque dormissem de véspera em casa de amigos... ou conhecendo os caminhos certos, -  pagar o bilhete era coisa de patos-bravos.

No meu caso, um residente na Bento de Freitas, o problema resolvia-se saltando quintais. Entrava em casa de amigos, fora do circuito -  e saía pelas traseiras, já dentro do mesmo. Foram décadas sem largar tostão.

O trajecto mais óbvio, nesta manobra, passava pela casa da Tia Beatriz. Possivelmente a mais sossegada da Av. Júlio Graça.

De modo que, na altura própria, tocava à campaínha, pedia licença, explicava ao que ia e pirava-me pelos fundos. Tudo se traduzia em saltar o quintal, deixando para trás a barreira delimitadora.

Quantas vezes os fiscais não me apanharam

- Alto aí!,

e mandavam fora os meus argumentos, todos eles menos o último:

- Venha daí. Estou nesta casa e comprovo-o.

Assim aparecia perante a Tia Beatriz, com o homem a meu lado, buscando razões. Confirmações. E a Tia Beatriz, sempre serena:

- É meu sobrinho. Passa férias comigo...

Não tinham remédio. Deixavam-me ir. E, as corridas por minha conta, lá galopava em direccção ao terraço dos Archers. Para uma tarde inteira de peripécias e emoções cheirando a gasolina.

Eram relações antigas, somando gerações. Um dia, a Tia Beatriz chamou-me: descobrira uma pagela alusiva à morte do meu Avô. Mostrou-a e esmiuçou as parecenças fisicas que descobrira entre ambos. Enterneci-me. Os meus olhos eram diferentes dos dela, eu miúdo, o Avô a tocar os quarenta, que não ultrapassou. Mas já na altura sentia - como tanto sinto hoje - um percurso de vida idêntico, aquela fatalidade com que é tão difícil lidar. E ambos com o mesmo nome (João Afonso), o nome que nos compete no lugar em que nascemos na Família...

Não creio exista alguém conheça tão bem o Avô como eu, pese embora a sua partida, 22 anos antes da minha chegada... Tudo porque o li, o percebi, o admirei, no seu infortúnio.

(Tanto gostava ter combatido a seu lado na Monarquia do Norte!...).

Saudades. Uma perda ou uma falta. Algo que vive no nosso coração e o acalenta, se não consentirmos acinzentá-lo.

Assim também, recordações recentes, bem vivas, da Tia Beatriz e dos seus dizeres sempre tão suaves.

 

Minhotos e transmontanos

João-Afonso Machado, 12.04.12

Fátima Campos Ferreira e aquilo que será uma nova série de programas televisivos, ontem iniciada em redor do distrito de Bragança: Portugal Hoje. Onde não vi nem ouvi muito indo além das banalidades do costume. Ou seja, o já gasto choradinho da "desertificação" e dos "custos de interioridade".

Um mundo inteiro distingue os minhotos dos transmontanos. Enquanto aqueles tocavam os sinos a rebate, chamando o povo à Restauração monárquica, estes repeliam-na, quantas vezes, com direito a carbonários zelando pela Provincia e nome epopeico em avenida lisboeta.

Mas, Politica à parte, Trás-os-Montes é ainda um mundo rural ou mesmo por explorar; o "verde" Minho, sucessivos bocados de terra que o Porto tem roubado à nossa identidade de sempre: a Maia, Gondomar, Valongo, Vila do Conde, Santo Tirso, V. N. de Famalicão... O que, de algum modo, Braga começa também a intentar. E uma morte produzida de década em década de tresloucadas aventuras na construção civil, senão mesmo de absoluta anarquia urbanistica.

Ainda há muito Trás-os-Montes; pouco resta já de Minho. Nem a Peneda-Gerês permanece imune à destruição.

Esta a razão porque hoje se há-de falar sobretudo nos "custos de litoralidade". Sejam eles o excesso populacional, o fracasso dos sectores produtivos, o desemprego consequente, o descalabro paisagistico. A situação inverteu-se: a região transmontana está apta a receber de braços abertos quem apostar nela (os transmontanos primam, ainda por cima, pela sua hospitalidade); a minhota não tem como mandar embora metade de quem lá vive (e onde se vive mal, o crime, por exemplo, tende a proliferar...).

O programa de Fátima Campos Ferreira havia, pois, de dar o seu tiro de partida no Entre-Douro-e-Minho. Logo na VCI, à saída do Porto.

 

Perspectivas de vida

João-Afonso Machado, 11.04.12

 

Engenheiro civil, 56 anos de idade completados. Casado, com os filhos (felizmente) já encaminhados. E uma vida de trabalho numa dessas gigantescas e conhecidas empresas de construções e obras públicas subitamente em colapso, a despedir gente por não ter que lhes dar a fazer nem com que lhes pagar.

Enfim, mais um desempregado.

A pequena propriedade da Família, meia-dúzia de hectares de vinhas, surgiu-lhe como a hipótese alternativa imediata. Todavia, desprovido de meios financeiros para investir e rentabilizar a produção, tudo ficou em tratar e colher as uvas para as vender por um preço exíguo - ao menos pago... - a uma qualquer grande empresa do ramo. O pouco que angariava continuava a não chegar para viver.

Assim vai ponderando, cada vez mais seriamente, a possibilidade de emigrar

(- O meu cunhado já lá está, no Brasil...)

porque aqui, cá, entre os seus,

- Quem me vai dar emprego, com a minha idade?

interroga-se muito consciente da situação e vislumbrando a medo a longínqua Angola, um mundo de incertezas e perigos, uma vida que seria talvez um aliciante desafio - há vinte anos atrás.

Sem dúvida, de bom grado dispensaria os subsídios de férias e de Natal. Importante, importante, era o que poderia trazer para casa, todos os meses, certinho. Se mantivesse o seu emprego.

 

 

 

Alguém, a sombra de Ninguém

João-Afonso Machado, 10.04.12

Os vizinhos não se lembravam dele. Era Ninguém. Sem rota nem rasto de vida. Uma história para sempre por contar. Mas Ninguém lançara Alguém, a sua sombra. E, não estando, figurava como se estivesse., descolorido embora, rente ao chão e às paredes.

Tornou-se um hábito sem voz e sem ouvidos. Ou tê-los-ia, informes, assustadoramente atentos? Ninguém, nada sendo, nada respondia. Alguém movimentava-se silencioso, não lhe escapando um gesto, o mais pequeno esgar, sombra fiel. Os vizinhos não sabiam o que concluir.

E a rua sem Ninguém suportava Alguém. Todos os santos dias e momentos, sobretudo os chuvosos, nublados, em que Alguém parecia crescer e se confundia com o céu. Sem cambiantes de luz, gelada de sentimentos, a rua tremia sempre sem Ninguém, esse desconhecido.

Se alguma vez por lá andou Ninguém, e lá voltar, o certo é não me ter visto e jamais me encontrar. Alguém, a sua sombra, e Ninguém estariam sempre no passeio oposto ao meu, longíssimo.

Porque sem nomes de gente e frases escancaradas, certo seria eu transformar-me também em Ninguém. Com o cinzento ensombrado de Alguém a meu lado. O que, de todo, me causa repugnância.