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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Memórias vilacondenses (XIII)

João-Afonso Machado, 17.04.12

Na esquina da Bento de Freitas com o jardim, era o mini-hiper-mercado da Praia. A salvação da comunidade. O "Sr. Mário", está tudo dito. Um espaço com menos área do que pé-alto, e cascatas de rolos de papel higiénico jorrando sobre bolas de queijo flamengo, garrafões de lexívia à mistura com garrafões de vinho, cêras e patês, cerveja, venenos, azeite, uma amálgama engarrafada, sacas de tudo quanto há - arroz, massas, pós suspeitos - graxa e conservas, enfim um labirinto indecifrável para todos menos para o Sr. Mário, a sua Sameirinho e talvez mais uma ou duas previlegiadas ao seu serviço.

Um balcão caprichosamente curvilíneo não bastava para os muitos clientes da casa. A espera vinha até cá fora ao passeio. Felizmente a chuva de Vila do Conde era um mito derivado do nevoeiro, uma simples questão de camisolas apenas.

O patrão - o Sr. Mário - não levantava o rabo da caixa registadora, sempre de lápis na mão. Quais calculadoras! E conhecia toda a gente, reverencialmente tratava toda a gente em mesuras ao mais puro estilo das côrtes setecentistas. Anunciasse eu o nome da minha querida Avó e levaria a arca inteira dos gelados Olá!, se a pedisse... Mas não, estupidamente tinham-me ensinado que não...

Já posteriormente mudou para espaço maior. Deixou aquele recanto, o encanto daqueles armários forrados a produtos, as janelas onde desbotavam ao sol bisnagas e latas, sei lá o que mais. Novidades dum tempo de que não sou testemunha presencial.

Antes, porém, era ali, paredes amareladas, os trocos de tostões dados em espécie, digo, em rebuçados, mais os recados à Ex.ma Senhora minha Avó. Numa multiplicidade de vénias, erguendo-se mesmo à despedida, ligeiramente, na sua cadeira diante da registadora.

Conhecedor profundo da comunidade veraneante, houve um episódio tremendo de lapso ou distração. Fenómeno estranhíssimo de que foi protagonista um reputado médico lisboeta. Isto quando andavam em moda as calças claras e umas camisolas de gola alta (as senhoras recordarão o tecido...) usadas no estio - sobretudo no vilacondense... - e os blazers de trespasse, botões dourados com âncoras em baixo-relevo. Ignoro o que o Dr. António Dias-Costa terá comprado lá. Sei apenas que, aprestando-se ao pagamento, perante o seu traje, o Sr. Mário sempre respeitoso, levantou-se do seu poiso na registadora e inquiriu, quase em sentido:

- Fará V. Ex.cia o favor de dizer, Senhor Almirante!

 

 

Primarismos republicanos

João-Afonso Machado, 17.04.12

«Juan Carlos Alfonso Victor Maria de Borbón y Borbón - Duas Sicilias, Rei de Espanha (e ainda, a crer nos seus titulos, de "reinos" como o de Jerusalém, de Nápoles, da Sicilia, da Sardenha e das Indias Orientais e Ocidentais...), decidiu, cansado dos entediantes afazeres da realeza, divertir-se. E que melhor maneira de se divertir do que pegar numa carabina e matar elefantes!».

Não fora a alusão a nomes e factos que indubitavelmente nos situam no Presente, dir-se-ia mais um excerto retirado de uma crónica de algum primário jornalista ou politico primo-republicano. Mas não, o autor é Manuel António Pina que assim ontem discorria na sua coluna diária no JN.

E não se ficou por aqui. Depois da alusão - de péssimo, deplorável gosto - ao acidente que vitimou o Infante espanhol, irmão do Rei Juan Carlos, o escriba Pina rematou indignado com o que os contribuintes do país vizinho pagam à Casa Real, um qualquer despropósito monetário que «dá para muitos safaris».

Não nos desenvencilhamos, fatalmente, desta República peçonhenta e demagógica, enraizadamente maldizente e mesquinha!

Como se nunca a rapaziada socialista de cá tivesse cavalgado tartarugas ou dromedários. Nem passeado com a filharada (e uma carabina?, uma portentosa máquina fotográfica?) pelo Quénia e outros exóticos destinos. Como se há muito não nos habituassemos às especiosas comitivas presidencias riscando os céus em aviões por sua conta, a expensas nossas, terrenos desta terrinha.

Urge a Espanha convoque Manuel António Pina para colaborar no imprescindivel termo da tirania. Simplesmente, não se sabe porquê, os espanhois não questionam o seu Rei, sobretudo em dias de crise como são os actuais. Juan Carlos tem consigo toda uma Nação de si tão dada a retalhar-se em uma série delas. Enquanto metade do nosso Portugal "bota abaixo" o Chefe do Estado republicano e os restantes lá o vão desculpando ou enaltecendo.

E quem poderá Pina apontar como exemplo de parcimónia, comedimento no despesismo da República portuguesa? Salazar?