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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Assim vivemos...

João-Afonso Machado, 16.04.12

Havia um cheiro passeando através dos anos numa bicicleta vermelha (ou talvez azul, maior, sem guarda-lamas), um cheiro que me chamava através de recordações onde a minha memória desfalece. Culpei-a impiedosamente, esquecendo não podia ser de outro modo... Lembrar-me de quê, nessa época dos calções, em que iguais significava a mesma idade, a mesma bola de futebol? Mas fui lá, corri a rua, lembrei os bifes com batatas fritas à terça-feira, conquanto o cheiro fosse outro. Nem sequer o da Glória, óculos pesadíssimos de aros de massa, vagueava a década de Sessenta em vidas principiantes... A Glória, um primor a servir à mesa, outra faceta do Passado...

Corri a rua, esbarrei na sua descontinuidade. E percebi, enfim.

O cheiro estava lá ainda. Não eram os jardins ou os almoços. Não era a brincadeira despreocupada dos quase dez anos. Muito menos o local preciso de uma habitação ainda hoje desconhecida.

Enchia-se a rua dessa menina de então. Não sei quem. Sei-a agora, outro cheiro do cheiro de sempre. Digamos - perfume. O perfume que sorvi em tempos escassos, actuais, queria eu eternos. Por acaso, efémeros.

Não faz mal. O que foi, foi para mim intensamente. Plenamente. Até chegar o momento da viagem. O mundo, para tantos, é feito disso mesmo: de viagens. Através da alma, rompendo o coração, sem mapa na mão, apenas a intensidade do querer. Há mais ruas em todos os recantos de todas as esperanças. Desde a infância, assim será sempre. Sem mágoas. Sem semanas perdidas, somente mais a pérola de uns dias com o que de bom eles ofereceram. Por tudo, obrigado, menina longínqua que foste, mulher que já lá vais.