Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Memórias vilacondenses (XII)

João-Afonso Machado, 13.04.12

Não me parece alguma vez um veraneante de Vila do Conde pagasse bilhete para ver as corridas de automóveis. Aliás, nessa época, o ponto alto das férias. Mas, ou porque vivessem dentro do perímetro do circuito, ou porque dormissem de véspera em casa de amigos... ou conhecendo os caminhos certos, -  pagar o bilhete era coisa de patos-bravos.

No meu caso, um residente na Bento de Freitas, o problema resolvia-se saltando quintais. Entrava em casa de amigos, fora do circuito -  e saía pelas traseiras, já dentro do mesmo. Foram décadas sem largar tostão.

O trajecto mais óbvio, nesta manobra, passava pela casa da Tia Beatriz. Possivelmente a mais sossegada da Av. Júlio Graça.

De modo que, na altura própria, tocava à campaínha, pedia licença, explicava ao que ia e pirava-me pelos fundos. Tudo se traduzia em saltar o quintal, deixando para trás a barreira delimitadora.

Quantas vezes os fiscais não me apanharam

- Alto aí!,

e mandavam fora os meus argumentos, todos eles menos o último:

- Venha daí. Estou nesta casa e comprovo-o.

Assim aparecia perante a Tia Beatriz, com o homem a meu lado, buscando razões. Confirmações. E a Tia Beatriz, sempre serena:

- É meu sobrinho. Passa férias comigo...

Não tinham remédio. Deixavam-me ir. E, as corridas por minha conta, lá galopava em direccção ao terraço dos Archers. Para uma tarde inteira de peripécias e emoções cheirando a gasolina.

Eram relações antigas, somando gerações. Um dia, a Tia Beatriz chamou-me: descobrira uma pagela alusiva à morte do meu Avô. Mostrou-a e esmiuçou as parecenças fisicas que descobrira entre ambos. Enterneci-me. Os meus olhos eram diferentes dos dela, eu miúdo, o Avô a tocar os quarenta, que não ultrapassou. Mas já na altura sentia - como tanto sinto hoje - um percurso de vida idêntico, aquela fatalidade com que é tão difícil lidar. E ambos com o mesmo nome (João Afonso), o nome que nos compete no lugar em que nascemos na Família...

Não creio exista alguém conheça tão bem o Avô como eu, pese embora a sua partida, 22 anos antes da minha chegada... Tudo porque o li, o percebi, o admirei, no seu infortúnio.

(Tanto gostava ter combatido a seu lado na Monarquia do Norte!...).

Saudades. Uma perda ou uma falta. Algo que vive no nosso coração e o acalenta, se não consentirmos acinzentá-lo.

Assim também, recordações recentes, bem vivas, da Tia Beatriz e dos seus dizeres sempre tão suaves.