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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Alguém, a sombra de Ninguém

João-Afonso Machado, 10.04.12

Os vizinhos não se lembravam dele. Era Ninguém. Sem rota nem rasto de vida. Uma história para sempre por contar. Mas Ninguém lançara Alguém, a sua sombra. E, não estando, figurava como se estivesse., descolorido embora, rente ao chão e às paredes.

Tornou-se um hábito sem voz e sem ouvidos. Ou tê-los-ia, informes, assustadoramente atentos? Ninguém, nada sendo, nada respondia. Alguém movimentava-se silencioso, não lhe escapando um gesto, o mais pequeno esgar, sombra fiel. Os vizinhos não sabiam o que concluir.

E a rua sem Ninguém suportava Alguém. Todos os santos dias e momentos, sobretudo os chuvosos, nublados, em que Alguém parecia crescer e se confundia com o céu. Sem cambiantes de luz, gelada de sentimentos, a rua tremia sempre sem Ninguém, esse desconhecido.

Se alguma vez por lá andou Ninguém, e lá voltar, o certo é não me ter visto e jamais me encontrar. Alguém, a sua sombra, e Ninguém estariam sempre no passeio oposto ao meu, longíssimo.

Porque sem nomes de gente e frases escancaradas, certo seria eu transformar-me também em Ninguém. Com o cinzento ensombrado de Alguém a meu lado. O que, de todo, me causa repugnância.