Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Amêndoas não coloridas - não!

João-Afonso Machado, 07.04.12

Foi no correr de uma qualquer conversa já sem rumo, completamente desnorteada:

- Eu até tenho aqui umas amêndoas...

Não era verdade! Não tinha amêndoas, não senhor. Onde as arranjaria, às cores, com todas as cores, como mandam os mandamentos, assim parda de falares, tropeçando nas frases, já tão enrodilhada em reticências.

Não era verdade, era mentira. Verdade era aquele casaco cinzento e a avenida onde ele se camuflava, inferno de ruídos unícromos. Quando muito aquela serpentina esquecida desde o carnaval nos ramos das tílias do passeio: desbotada, enrolada no folhame, aguardando apenas a vinda dos podadores. Lixo!

Na inumanidade da avenida não há amêndoas. Nem Páscoa. Não é por causa do supermercado que o impossivel deixa de o ser. Por isso os dizeres fugitivos, as promessas vãs, a ressurreição de todos os medos somente. E um saquinho de qualquer coisa a fingir.

Assim a cidade fugiu da avenida e veio cá para baixo, onde há vozes e almas e não apenas sorrisos saltitados em frente do espelho. Para sempre. Lugar à vida e ao colorido de todas as amêndoas que nos adoçam o coração.

Já a avenida mais não é senão uma recordação, o lúgubre poiso dos fantasmas.

 

 

 

 

Memórias vilacondenses (XI)

João-Afonso Machado, 07.04.12

«(...) o ora denominado "Palacete do Conde de Riba d'Ave". Nunca dali vi sair nenhum conde, somente nuvens de crianças, as participantes nas "colónias de férias" que, antes de todos, tomavam o rumo da praia. Em filas de dois, devidamente escoltadas e fardadas de bibes iguais. A manhã passavam-na em sossegada brincadeira, até que chegava a hora do mergulho - uma a uma, de vontade mais ou menos livre e espontânea, eram entregues ao Baltazar, banheiro de ofício vai para 50 anos, que, tapando-lhes nariz e boca, as enfiava no Oceâno, de onde emergiam sacudindo as penas, com um ar não sei se de grande contentamento (...)».

 

(Vd. Em Vila do Conde descendo a Av. de Bento de Freitas, ao longo de algumas gerações, in O Tripeiro, 1993, pág. 238 e segs.)