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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A ditadura dos piquetes

João-Afonso Machado, 22.03.12

A greve é um direito constitucionalmente garantido. Sabemo-lo todos, desnecessário será repetir a asserção. É um direito - mas não é, definitivamente, uma obrigação. Fica sempre assegurado aos trabalhadores a possibilidade de aderirem, ou não, a uma qualquer manifestação desse tipo.

Pois não é assim que parece suceder em Portugal. Como a televisão regularmente vem demonstrando. Hoje ainda - dia da estreia nas artes do sindicalismo de rua do Secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos - quem não atentou nas atitudes intimidatórias tomadas, de colega para colega de trabalho (seriam?) na saída, em Lisboa, dos camiões do lixo?

De tal maneira que, não fora a intervenção da Polícia, decerto ali ocorreriam conflitos - mais curialmente: pancadaria - entre trabalhadores. A luta dentro da própria classe, senhores-ainda-seguidores-da-cartilha-marxista!!!

Não há quem não perceba o que se passa. As greves, entre nós, são cozinhadas nos gabinetes sindicais e trazidas para os locais de trabalho contando, por norma, apenas com o apoio da minoria comunista. Veículos da mobilização dos trabalhadores? - Os piquetes. Ou seja, funcionários sindicais. Artistas dessa arte de conduzir os rebanhos, de transformar as multidões em grupos organizados e vectorizados. Onde estiver um megafone, está um desses especialistas.

Mas até aí não viria grande mal ao mundo. A situação torna-se, porém, mais crítica quando, no calor revolucionário que ainda possa subsistir debaixo das cinzas dos satélites  da defunta URSS, os homens dos piquetes resolvem moldar, condicionar, a vontade e a liberdade daqueles que, no exercício dos seus direitos (com igual expressão constitucional), não se deixam entusiasmar pela aventura.

E então é o que se vê. Das ameaças às pedradas tudo serve para erguer a estatística. Os números são importantíssimos neste mundo de aparências que é o mundo da ditadura dos piquetes.

 

 

Ao despertar do dia

João-Afonso Machado, 22.03.12

Como se andasse rodando o mundo e todas as manhãs acordasse ao som vivo de um continente sempre diferente. À margem, um breve recado, os votos simples de mais um dia com princípio, meio e fim, e depois o silêncio, prelúdio do conforto musical a que já se habituara.

E logo acorriam os instrumentos e as vozes, admirávelmente escolhidas entre quantos momentos inspirados e imaginativos lograra descobrir. Percebendo-se tão bem como gostava dessa oferta sua.

Por isso, tudo ia além de uns breves minutos diários amaciando o complicado instante em que a vida se ergue para mais um frente-a-frente com o Tempo. Não! - ponderar isso, somente, seria demasiadamente superficial. Porque havia uma mente e duas mãos conduzindo - maviosamente conduzindo - esses acordes de eleição aos ouvidos destinatários. Os quais, por acaso, tinham por donos um coração e uma alma. Vale dizer, o percurso descrito não era ladeado a preto-e-branco.

Possuiam cores multiplas, as melodias desse vaguear no planeta. Raças, étnias, diversas. Como um jardim de gente viajada onde uma senhora de bom gosto se entretinha em passeios de fim-de-tarde.

 

Para constar do Guiness

João-Afonso Machado, 21.03.12

Nada menos do que 14 membros dos Governos socratianos indiciados por crimes diversos - abuso de confiança, peculato - sob queixa da Associação Sindical dos Juizes Portugueses.

Um record! "Eles" são só 14 ministros!

Em termos factuais, a prevaricação terá a ver com o uso abusivo de cartões de crédito e de subsídios de residência ou de despesas de representação. Em suma -  e fatalmente - dinheiros. Dinheiros públicos aproveitados para fins particulares.

Penso eu, Sócrates reprovará - não a conduta dos seus ministros, mas o seu ano lectivo em Paris. Por faltas, decerto, não por ignorância de conhecimentos. E de lá não arredará o pé. Qual Vale e Azevedo. Porque vale tudo.

As explicações e embróglios concomitantes, - desde já, a cargo do actual Governo, sempre às voltas com a maldita despesa pública.

Até à próxima oportunidade, fiados (eles os socratianos) em que a memória do povo é curta.

 

 

Morreu!

João-Afonso Machado, 20.03.12

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Trouxe-o como um adoptado e instalei-o principescamente por todos os cantos da casa e o sol da varanda inteiramente por sua conta.

Nesse ripanço suave passava os seus dias, com uma ou outra saída fortuita, desde logo quando sentia aproximarem-se os cães, de quem não gostava particularmente. Ou para caçar qualquer rato, um esquilo, uma lagartixa... Era o Costa. Morreu neste último fim-de-semana. Sem que eu sequer soubesse estava doente, sem que alguém me comunicasse tão triste perda.

Foi por um amigo que ouviu de uma prima...

O meu exilio citadino tornou-se mais doloroso ainda. O Tempo, essa enigmática realidade que me consome o pensar, um pedaço de gelo mais frio ainda. Implacável, furiosamente implacável! Quantos bocados de vida o Tempo, maldito, não tem ultimamente lançado ao Passado, sempre com a maior brutalidade?

Além de inexplicável, além de incontrolável, o Tempo tornou-se violento. Surprendentemente caprichoso. Palpita-me que o velho Gato Costa perdeu a pachorra para o aturar. Vai daí, enquanto se apagava, de um pulo refugiou-se na minha memória, o único sotão onde o Tempo não consegue causar mossas. E por cá se manterá, naquele seu inconfundivel ronronar.

 

Promissoras impressões

João-Afonso Machado, 20.03.12

A gente lembra-se de Campos e Cunha a deixar espavorido a pasta das Finanças num dos Governos de Sócrates; lembra-se de Sousa Franco comentar, um pouco alto de mais, que o seu sucessor Pina Moura era, em Portugal, na mesma pasta, o pior ministro desde o reinado de D. Maria II; lembra-se, enfim, da "Picareta Falante", do "Pinóquio" e de toda a sua desastrosa envolvência... E atenta agora na segurança com que Vítor Gaspar fala e se faz ouvir entre inconstestáveis especialistas nos EUA; na segurança com que adianta políticas, prazos, objectivos. É impossivel não retirar a confortável conclusão de que caminhamos para melhor.

Ninguém se alheia da realidade: o futuro, além do mais, não está apenas nas nossas mãos, o mundo transformou-se numa caixa de surpresas e imprevisões. Mas nas mãos em que a actual governação do País recaiu há indiscutivelmente vontade, ciência e, coisa rara, seriedade.

Ou serão estas minhas palavras fruto somente de excesso de optimismo, cegueira política, ingenuidade e ignorância, enfim?

 

"Instantaneos" da vida judicial

João-Afonso Machado, 19.03.12

Assisto, no momento em que escrevo estas linhas, ao julgamento de um comerciante acusado da prática de um crime de abuso de confiança fiscal. Mais um infeliz incapacitado de entregar o IVA ao Estado em tempo próprio...

Depõe, como testemunha, um inspector dos Serviços de Finanças. E a M.ma Juiz interroga-o acerca das intenções do arguido - pretenderia ele defraudar a Administração Fiscal?

Vá lá, acabo de ouvir o depoente expor as suas dúvidas acerca da referida intencionalidade... Talvez escape, o pobre comerciante, a viver do seu pobríssimo comércio neste paupérimo Portugal.

E, atentando bem nas suas feições, creio estar-lhe predestinado o azar. Senão, eu próprio, finda a audiência, o aconselharia a enfiar uma meia na cabeça e assaltar umas quantas ourivesarias. Para repor o que a Fazenda Pública reclama dele, claro. Jamais seria julgado por isso, estou certo.

Mas é melhor não: com aquela desafortunada expressão arriscava-se a levar um tiro letal...

 

Passado e Presente

João-Afonso Machado, 18.03.12

O piso, outrora rosado, térreo, fora entretanto pavimentado. Mas os bancos permaneciam no seu sítio e esse foi o ponto de encontro. Junto ao coreto onde jazem esquecidas as memórias dos grandes exitos dos Sixties transportados até à praia por muitos fios e altifalantes

Aí estava uma das engrenagens do Passado já não compatível com o Presente

(- Olá Paula!

- Olá! Viva!)

e muito menos ao alcance da Nikon e da Cannon, neste confronto de épocas e percursos.

Foi assim a tarde inteira. Com o Presente sendo nada mais do que é e o Passado um baú imenso de onde brotam penedos com nomes próprios, dunas de antigamente tragadas pelas grandes construções, cardos e camarinhas em lugar de gente aos magotes. E muitas, muitas histórias agarradas aos sítios, narrando-se felizes à passagem de qualquer interveniente ou testemunha. Do paredão à foz, em Vila do Conde, pelo rio acima até à nova ponte do metro, por quantas pracetas a modernidade produziu.

Ficaram muitos retratos. Alguns, apenas pintados com cores de espanto no conhecimento da Paula, uma vilacondense de não mais de há 12 anos. Outros, a demonstração de que o Passado ainda não desesperou de alcançar o Futuro. Enquanto se aguentar no Presente.

Não é recomendável viremos os olhos à realidade. Ela está lá, por muito que a tentemos ignorar. Mas custa sempre sabermos os cardos e as camarinhas substituidos por gente aos magotes. Afinal, também nos assiste o direito à reserva das boas recordações da juventude.

 

 

Memórias vilacondenses (VIII)

João-Afonso Machado, 17.03.12

A casa mais baixa, simplesmente branca com janelas verdes e uma acolhedora varanda onde os Clavel gozariam o pôr-do-sol ou tomariam o seu chá, sempre devidamente abrigados dos rigores climatéricos de Vila do Conde. Todos se lembram... todos se lembram da notícia tenebrosa: a Santa Fé ia ser posta à venda!

Para dar nisto. E, o mais grave, com uma sentença de morte pendendo sobre aquele jardim de carreirinhos, pinheiros, bastos arbustos, onde diariamente disputavamos as mais renhidas corridas de bicicletas. Por todo o mês de Setembro, quando já só eramos os bastantes.

O dueto vencedor constituia-se, sem uma terceira alternativa possivel, por mim e pelo Zé Diogo. Os das bicicletas roda 26. Ganharia o que arrancasse mais depressa porque espaço para ultrapassagens era o que não havia.

Seguia-se uma trupe imensa de participantes - o pelotão - em que se destacava, com a sua roda 12, artilhadíssima, a bicla do Nuno Ratazana. Ele próprio, aliás, não esquecendo o fato-macaco, as luvas, cotoveleiras e joelheiras e um formidável capacete com uns óculos iguaizinhos aos do Giacomo Agostini.

De modo que a corrida assim se processava: eu e o Zé Diogo em picardias constantes, a ver se nos mandávamos pela borda fora - a única ultrapassagem possivel - os restantes (a quem muitas vezes barafustavamos encostassem para os dobrar) pedalando quanto podiam e, por fim, o Ratazana, supersónico, em último lugar mas sempre a fazer "joelho técnico" na derradeira curva antes da meta.

Tardes de 1975/76...

 

 

"De uma vez por todas"

João-Afonso Machado, 17.03.12

Lembro a noite das estrelas tentadas,

súbitas e cadentes

no mutismo do céu

desejadas.

 

E a noite já nada escondendo

e pela manhã o cair do véu

e quatro palavras postas em riste

 

vindo de ti a realidade

com que me feriste.

 

Por isso o silêncio, enfim

o definitivo silêncio sangrando

as lágrimas de quando

levantei a voz e baixinho chorei

mentiste!,

mentiste!,

mentiste!

 

Otelo, a sua revolução e os seus seguidores

João-Afonso Machado, 17.03.12

J:\FOTOS\DIVERSOS - BLOGS\JULGAMENTO FP25 (1985).J

Palavras de Otelo Saraiva de Carvalho em recente sessão pública em terras coimbrãs: «só as Forças Armadas, em nome do povo, poderão resolver a perda da soberania de Portugal, como o que actualmente se verifica, derrubando o Governo». E para que dúvidas não subsistissem, desenvolveu toda uma extensa teoria sobre as vantagens de «uma operação militar que - insistia - derrube o Governo em funções».

Não consta as reflexões otelianas tenham causado grande mossa, sequer impressionado as gentes. Fonte sorridente do Ministério da Justiça relembrou mesmo que vivemos num Estado democrático, como quem diz, nada impede cada um prodigalize os os maiores disparates.

Houve, porém, um menos visivel sector da sociedade muito atento à palestra do (seu) Herói. Interessado não tanto no papel das FA, ou na humilhante perda da soberania nacional; sequer no derrube do Governo. Antes mais - muito mais - nos métodos preconizados pelo orador, temível cabo de guerra - o uso das armas.

Dessas mesmas armas herdadas - quantas delas? -  da Revolução que Otelo intentou levar para a frente e que, hoje ainda no activo, vão servindo para derrubar ourivesarias, bancos, gasolineiras, caixas multibanco e mesmo um ou outro ser humano que se lhes atravesse na frente.

É esse, na realidade o auditório de Otelo. E, reconheça-se, não tem parado de crescer.