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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Negociar culturalmente em Portugal"

João-Afonso Machado, 27.03.12

Não tem sido um escândalo. Já o ameaçou ser, de resto na altura mais apropriada - quando Sócrates era 1º Ministro. Mas, é sabido, o poder da Maçonaria é imenso. Agora, confrontados com a discencia do criativo quase-auto-engenheiro, a notícia perdeu impacto. Do mesmo passo que os factos vêm à tona, já em adiantado estado de imprestabilidade política, logo com pouco ou nenhum poder político. Justiça à margem, que interessa agora o seu envolvimento no "caso Freeport"?

A realidade é que a ligação, o conluio, parece cada vez mais evidente. Num cenário de famigerados lobys, uma assanhada compita entre as autarquias e os dirigentes autárquicos da região. Alcochete, ao que se vai percebendo, fervilhava em ofertas, propostas, almoços, favores, lagostas e retribuições. Isso é dos jornais actuais. Atrasadamente, saberá o STJ porquê.

Afirmam categoricamente as testemunhas do processo, o então Ministro do Ambiente negociava «em segredo». Os números - falo de dinheiro contado - ascendiam a, como ora se diz, uma mão cheia de dígitos.

E a mais dura verdade terá saído hoje da boca do antigo dono dos terrenos onde plantaram o outlet: William McKinney, residente na Irlanda do Norte. Não fossem elas as seguintes:

«Foi um choque. Essa parecia a maneira de negociar culturalmente em Portugal»

Interpreto eu: à mesa, babujando fabulosa almoçarada, e as notas circulando por baixo da toalha. Que vergonha!

 

 

Velhos papeis vimaranenses

João-Afonso Machado, 27.03.12

No ruir de mais uma veneranda casa, eis um manuscrito descoberto, que alma bondosa me fez chegar ao conhecimento para decifração, aliás dificil pela sua degradação:

«Senhora: Ledes nestas negras tintas as negras lágrimas por meus olhos choradas depois da vossa partida. Eu quis-vos, Senhora, tanto quanto quis viver e crer quanto valia viver. Assim empenhei os meus escassos teres, assim segredava ao meu cavalo o dia feliz em que a sua fidelidade nos transportaria, Senhora, à cores inimitáveis de um mundo já no termo do Paraíso. Assim também, Senhora, lhe rogava silêncio e paciência nos intervalos nocturnos das entrevistas que quis a ventura convosco partilhasse, Senhora minha, nessas noites em que a vossa janela se abria e... [grosso borrão sufocando a grafia e impossibilitando a leitura].

Depois, Senhora, saberá Deus porquê, a janela que haveis aberto à minha ousadia e ao meu coração, entrou a fechar-se, sempre mais, implacavelmente mais, até que, por fim trancada, me deixou vagueado perpetuamente na vila e na vida. Até aos dias em que não há rua nesta nossa terra não assinale a sangue o meu tormento. Como não essas marcas de punhais cravados na minha alma já confiante, depois de... [novo borrão incapacitante] Senhora que vos haveis apoderado da minha mente, das minhas emoções, do único destino em que acreditei não me conduzir à desgraça?

Não creio já consiga este meu derradeiro desabafo chegar a mãos vossas. E muito menos ao vosso espírito, Senhora, inicialmente acolhedora e... [borrão propositado em tão significativo passo da hermenêutica do texto] depois implacavelmente de gelo, queimando tanto quanto o fogo do inferno a que conduzistes este que em vós acreditou e hoje já apelidam de fantasma com o nome depreciado, aviltado, mas sempre pertença vossa, de... [novamente a leitura se revela impossivel, agora por via do rasgão operado no documento]».

Consultados alguns especialistas camilianos, todos foram unânimes em considerar que o seu génio não captou o drama ínsito neste bilhete. Sem embargo, muitos outros, claramente semelhantes, inspiraram a sua obra. Situações destas, assim se conclui, eram à época frequentes.