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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Hotel de charme

João-Afonso Machado, 15.03.12

 

Uma acutilante indignação lombar retirou-o do sono profundo em que mergulhara ia lá meia-hora, a madrugada alta e o vento siberiano infiltrando-se pela vidraça, a invadir-lhe o leito assente no pavimento. Constituido por não mais do que pomposos tecidos de Calcutá, ditos edredons. Ou por, em bom rigor, um edredon, por um edredon singelamente, qual parcos preparos de faquir.

A bem curtida pele de leopardo em que se cobria não bastava para lhe preservar os pés da invernia. Enregelava pitorescamente, assim como as pontas de cigarros acumuladas (e o narguilé?) nos cinzeiros, as sobras, enfim, de um prolongado serão turco. Defronte a si, um breve trecho amazónico, carregado de piranhas e águas turvas, mais alguns cadáveres semi-ocultos no fundo lodoso.

Abriu a luz, vagamente europeia, e dirigiu-se aos sanitários através de uma savana onde pululavam felinos, decerto caçadores famintos de baratas, e algumas aves canoras, de olho atento, pelo sim, pelo não.

Na divisão ao lado roncava um genuíno sultão, em cama rotunda como um harém. Mas, percebia-se, nem o maior contigente de odaliscas seria capaz de acordar o magnata antes da alvorada e da sua sessão de banhos. Abusivamente, por isso, fez uso dos seus unguentos e perfumes, contidos numa frascaria imensa. E regressou ao aposento que lhe fora destinado.

Até ser dia, continuou visualisando o planeta naquele encantador hotel de charme. Experimentou mesmo a pulguinha campesina. E o canapé setecentista e acolchoado, onde o edredon retomou funções mais ocidentais, em parceria com duas almofadas. Assim as suas costas serenaram e a expedição foi dada por finda. Era, inquestionavelmente, um latino. Desses mais comodistas e acomodatíceos.

 

Tornando à Av. de Roma...

João-Afonso Machado, 15.03.12

«(...) Eram de fartas cervejas as noites na Sul América. (...)

Por essa altura, um enigmático "Doutor" conglomerava as atenções dos circunstantes. (...) Dissertava, filosofava sobre política e sexo, reproduzia máximas de cérebros fulgurantes. (...)

Gorduchinho, redondinho, os óculos fugiam-lhe pelo nariz fora e a gravata era um resquício vago de outros tempos de sanidade mental. O fato tinha nódoas e buracos, quer nas calças, quer no casaco, tudo de um castanho acaramelado, pertencente a uma elegância que há muito já não era sua. (...)

Apesar dos seus exercícios especulativos, o Doutor, na realidade, estivera perto do diploma de engenheiro. Brilhantíssimo, não restariam dúvidas. A razão, todavia, rasteirara-o no termo do percurso.

Viciara-se nos estudos e nas mulheres. Um vício desmedido que o consumia e lhe exigia mais do que as suas reais capacidades. O Doutor alimentava-se a pastilhas que lhe prolongavam as vigílias entre os livros ou enrijeciam imparavelmente os seus empolgantes desempenhos amorosos. Até que um dia foi o curto-circuito. (...)».

 

De Numa Outra Geração, in Contos do Tempo, ed. DG Edições, 2008.