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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Quem estancará as semanas malditas?

João-Afonso Machado, 06.03.12

Manuel António Pina é escritor e poeta consagrado. Escreve diariamente no JN crónicas (designadas "Por Outras Palavras") que usualmente me deliciam, conquanto ressalte bem claro o seu posicionamento "à esquerda". Mas acima de tudo prevalece a sua isenção e, se alguma vez, senti assomos de o confrontar foi por palavras necessáriamente acintosas contra a Instituição Real. Seria um gosto... quiçá um dia satisfeito.

Ontem, MAP insurgia-se contra dois eticistas das Universidades de Melbourne e de Oxford que, em suma, concluiam «manter recém-nascidos é eticamente justificado pelos mesmos motivos, incluindo motivos "sociais" e "económicos" porque se permite o aborto».

MAP insurgia-se, nessa sua peça contra quem pondera - para quê o sofrimento dos deficientes?

Para, de imediato, entrar em considerações que atingiam a lógica hitlerariana. Lógicamente.

Revelando o seu lado humanitário, aliás, inquestionável, rematou com a conclusão de que, por essa via, acabariámos matando bebés alegadamente devido aos inerentes «encargos sociais, psicológicos e económicos". Prosaicamente, um assassinato, em seu entender.

Pois é!

E a sua revolta exulta quando os ditos académicos questionam a personalidade do bébé, "sujeito de direitos morais" (além dos patrimoniais, claro), ser despido de quaisquer «expectativas».

Concluia, apocalipticamente, ficar a porta aberta para o pior, na óptica dos «doentes incuráveis, reformados ou desempregados sem hipótese de regresso ao mundo do trabalho».

Assim alertando para a implacabilidade de um mundo pragmático e frio como o gelo das mais horrorosas conveniências.

E, asssim, só lhe faltou defenir o que é um bebé. Ou, antes melhor, um ser humano. Uma breve leitura do Código Civil fornecer-lhe-ia, creio, alguns dados importantes. O nascituro é, desde logo, sujeito de direitos. O que pressupõe a sua personalidade jurídica. Não fora assim, desde que o aborto foi admitido, não andaria a Esquerda a batalhar, faseadamente, limites passo a passo mais avançados: já vai em quantas semanas  de gestação?

O ser é sempre o mesmo. É humano. Começando na mais indefesa das criaturas até berrar à luz do dia e vir a ser forte ou fraco, saudável ou doente sem remédio.

MAP não terá percebido que um referendo que legaliza o aborto de 9 para 12 semanas (errarei possivelmente os limites...) vai sempre em diante. Até ao hitlerianismo matador dos nados-vivos, mas deficientes. É uma questão de tempo, apenas. Cada degrau de cada vez. Sabedores que, no cimo da escada, espera os incapacitados instrumento afiado apontado à sua jugular.

 

Tempos dos verbos

João-Afonso Machado, 06.03.12

A vida encheu-se de uma viela de portas e janelas tocando-se como corações a arder. Poderia ser assim?, interrogo-me, já perdido nos verbos que ecoam nas lajes da viela. Desse sonho escolhido para viver todos os dias a estreita escadinha, o cadeirão do lado de cá da cortina. Queres vir?, insisto, novamente desorientado nos tempos dos verbos. Aconteceu, não foi? De tão próximos à noite, varanda a varanda, como uma só, confesso - não sei, somente sinto.

E ao amanhecer recordo a pergunta, decerto ansiosa: são sólidas as paredes da viela? São, não são? - mesmo na certeza, podre estivesse o tabique, eu não voltaria atrás, isso nunca, porque há uma voz e um vulto, quase lágrimas, e a ternura acabou de se instalar no andar de baixo, onde o sol ainda não aquece tudo.