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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Poente

João-Afonso Machado, 08.02.12

Sobre as águas, as últimas résteas de credulidade. Estranhamente. Ou tão-só porque a certeza fosse excessiva. A certeza diária do pôr-do-sol, é claro. De uma areal solto e solitário, por imposição do mês calado, sem verbo. Falassem as vozes, por solidariedade austeras. Foi o que foi, na incompreensão das chuvas que não vêm.

A grande bola enterrou-se aguda como os pregos na cruz. No preciso momento em que a beleza disfarçava a dor. A pedir silêncio. A clamar por silêncio. No limiar da compreensão.

Aliás, como qualquer linha do horizonte. Porque amanhã será sempre outro dia. Outra história.

 

 

Chegando à ponte, à direita...

João-Afonso Machado, 07.02.12

Quinze anos são muitas rotundas e variantes novas. Um País diferente e um mapa indecifrável. Mesmo assim fugimos à auto-estrada.

- Vamos por aí fora? Até Tomar?

Sim, era para ir. Sem medo e com todo o vagar dominical. Também há já um ror de tempo não rumava aquelas bandas. Assim começámos a trepar o distrito de Santarém. Apesar de tudo, atarantados com tanta inovação em tão desvastada Pátria...

Muitas cornucópias após, a cidade do Nabão. E o recanto que eu trazia em mente. Junto ao rio, exposto ao sol, polvilhado de migalhas para as pombas. Sobrevoado por patos reais, musicado pelas águas nos açudes. Nem mais do que esse saudoso lugarzinho de petisco. Quem chega à ponte velha.

Depois foi o passeio pela zona histórica. Depois - da conversa, dos olhares, dos silêncios, do cão semi-vadio, depois de tudo o que faz a diferença entre a Provincia e os grandes centros urbanos.

Depois destes pedaços de calçada, das trepadeiras ainda em uso, da ausência da construção em altura... Depois dos saturantes dias da semana. E antes deles, infelizmente.

 

 

"Montes"

João-Afonso Machado, 06.02.12

CHÃS - CABEÇO.JPG

Aprendeu os penedos e as fragas,

o silêncio do sentir

e os segredos a cobrir as dores

e as mágoas.

 

A alma quedou as suas cores e viveu a neblina

sem uma lágrima, um sorriso,

entre os cardos da colina.

 

Mas urge rompa a primavera,

sangue do verde

seiva da hera,

afluxo violeta-rosa-amarela,

 

ou o instante do cometa,

luz no breu, vitoriosa,

enfim, Senhor meu,

no frio da tua cela.

 

 

 

Momentos de um país de doutores

João-Afonso Machado, 06.02.12

Falar com um ribatejano de gema, já se sabe, é voltear cavalos, memórias dos seus heróis equídeos, exponenciar esperanças no futuro dos potros, enfim, louvar a festa brava... E comer um petisco bem demolhado num copito. Foi assim, em parte, este fim-de-semana.

Há os mais e os menos apetrechados. O meu anfitreão mantinha as suas quatro éguas, duas poldras baias também, liam-se os seus olhos, porque isso era mantê-lo vivo. Agarrado ao seu mundo de sempre.

De modo que esse foi o tema da conversa. As obras no picadeiro, as atrelagens a necessitar restauro, as rações, as semeaduras... Até chegarmos ao ponto que mais me interessava, mácula que há muito já se sofre aqui no Norte:

- E para ferrar os animais? Não faltam os ferradores?

Pois, isso começa a ser um problema. Os ferradores, os corrieiros, gente que saiba lidar com os breaks, as charrettes...

- Tenho aqui um tillbur todo desmontado... A capota a estragar-se...

Neste Portugal de desempregados, falta pessoal para trabalhar na terra dos cavalos, nas correlativas especialidades. Quer-se um ferrador, e ele dificilmente aparece. Ou melhor: é certo, já andam aí uns jovens, holandeses ou belgas, conhecedores do ofício, a oferecer os seus serviços no Ribatejo.

Azaradamente, a preços a que se habituaram nos seus países de origem.

Mas não quem nos tire a miragem da Universidade, julgo. Até para poder barafustar contra o elevado custo das propinas.

 

 

Segredos de pedra

João-Afonso Machado, 02.02.12

O mundo derrapa para norte. Irresistivelmente. Litoral acima, sobre areias deslizantes, desconhecendo invernias, de sapatos nas mãos. Não se sabe se é assobio seu, se os ventos da época, os pescadores guardam um silêncio envergonhado, olhando as ondas, as mesmas sempre, sempre no seu local de eleição. Enquanto o mundo parece ignorar o cansaço. E o silvo não pára, recrudesce, dir-se-ia entusiasmado. Mesmo sob a ameaça de perder o controle e abrir um ermitério nos confins das serranias - estranho capricho!...

Quando começou a sua caminhada, o mundo, até quando a prolongará? Eis o segredo dos deuses, eis o que lobos medievais guardam sem açaime, entre escarpas, já depois do granito inacessível.

 

 

Das "Memórias de Um Átomo"

João-Afonso Machado, 01.02.12

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 «Fora notícia: o senador morrera de uma bala certeira no coração. Capturado e prontamente julgado, o autor do atentado sofreria pena capital. Depois de amanhã, por esta hora...

A indignação tomou conta dos republicanos portugueses. A condenação à morte era a maior cuspidela na sua Ética. Convocados por Soares Pai, compareceram todos no local escolhido: o sótão de Alegre. Para ser mais democrático, mais clandestino.

O anfitreão, sempre grave, sempre patrióta, acolhia-os de braços abertos, emocionadamente:

- E o Aquilino, o Tito, o Rego, o Cal?

Soares Filho viu-se obrigado a lembrar-lhe que esses convivas haviam já morrido. Mas todos se curvavam ante a sua memória...

- Ah, pois! Já me esquecia. A mim não há quem me mate! Só a morte!

E passaram à ordem do dia: a viagem aos EUA para uma manifestação pelo direito à vida, junto da prisão do Texas.

Simplesmente... eram poucos, não os bastante para erguerem a bandeira da República e uma tarja alusiva. Além de que as deslocações estavam caríssimas e rareavam as sinecuras.

- Oh Reis, vê lá se arranjas algum...

- Eu? Quem manda agora é o Lima. Falem com ele...

Alguém sugeriu também contactassem o PSD. Que diabo! Neo-liberais, ninguém o negava, mas nem todos destituidos da Ética republicana.

- Vou ligar à Mozart!

- Eh pá, para essa não! Consta que o pessoal não paga as contas e já lhes cortaram o telefone.

E a reunião (o complot) ameaçava ficar nisto: na contagem de espingardas - escassas - e dos pecúlios - já não os de outrora... Desanimadamente. Foi quando alguém lembrou:

- Vocês sabem, faz hoje 104 anos mataram o Rei D. Carlos e o Princípe.

Instalou-se o júbilo total!

- Rapazes: temos mesmo de ir aos EUA. Além da Fraternidade comemoramos também a Liberdade e a Igualdade».

 

(Com a devida autorização do meu Amigo J. da Ega, a quem muito grato sou).

 

Os tempos têm fim

João-Afonso Machado, 01.02.12

Percebi o esforço, essa intenção de se irmanar aos botes, chamá-los pelos nomes. De viver os seus dias na baía, tratando-lhes das velas, a mão dada a namorar-lhes o leme. Era uma história de infância com o berço vagamente deslocado, o leite cedido pelo biberon de alguém mais compadecido. Porque nada acontecera, nem aconteceria depois. Fora apenas um momento de euforia, talvez um efeito do multicolorido dessas horas festivas.

Não tornaram os botes. Não tornaram, é claro, à conversa e à pretensa erudição das suas palavras, porque na realidade os botes estão lá, na constância dos seus navegantes.

Sempre foi assim. Aceitem-no os botes, aceitemo-lo todos. Os tempos têm fim, e o fim dos tempos é o apagar da memória. Quando se erguem já as chamas da desvergonha.

 

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