Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Memórias vilacondenses (VI)

João-Afonso Machado, 23.02.12

Era uma esfinge, também sem nariz, plantada naquele ermo, nem Vila do Conde nem Caxinas. De uma altura quase insuperável, sobretudo para mim, quantas vezes ao dia carregando a bicicleta até ao patamar do 2º andar, onde veraneavam o Tio João e a Tia Lélé. Entendia-se porquê: em finais de Agosto, o Tio João rumava Lisboa, onde o esperava o emprego; a Tia Lélé ficava mais duas ou três semanas, com a Balocas e... comigo. O Xinoca há muito se fizera ao planeta na sua Gilera. Deixando-me a dita bicicleta.

Setembro era o meu mês de eleição. Vila do Conde tornava-se mais respirável, nela se mantendo apenas a "velha guarda". A Tia concedia-me liberdade absoluta e forrava o frigorífico de bifes para os meus almoços. Deixava-me fumar à vontade. E eu tinha, então, 16 anos... Setembro era mesmo o meu santo mês de liberdade!

O pioneiríssimo prédio ficava no cruzamento da rua que vinha do Hotel com a que levava ao Caximar. Uma distância considerável, à noite, para uma Senhora percorrer a pé. Daí o compromisso diário: após jantar, levaria a Tia ao serão em casa dos amigos. De bicicleta.

De modo que - hoje não creio fosse capaz - feita a toillette com os naturais arrebiques femininos, lá marchávamos no velocípede, eu ao volante, a Tia sentada no quadro da pasteleira. Com todos os cuidados - era a época das "bocas-de-sino" - para não sujar as calças no óleo dos pedais e da corrente. Estrada fora, em amena cavaqueira, o meu Português Suave sem filtro no canto da boca... Sem problemas, sempre a descer.

Já o regresso, com hora devidamente marcada, se afigurava mais penoso. Por causa de umas cervejitas pelo meio, do cansaço de um dia inteiro, porque a Tia não era magricela e o trajecto, em vez de descer - subia sem hesitações, Hotel fora.

Ainda assim, o Português Suave sem filtro lá alumiava a caminhada. E, entregue a Tia em casa, eu voltava aos meus afazeres. Regressando, em definitivo, não raro, com a Balocas nesse mesmíssimo quadro, já quase com dignidade de transporte público.

Era assim a velha Vila do Conde. Com este prédio mais branco, manchado da humidade, uma tarja verde, em volta das varandas e janelas, e sozinho. Sempre sozinho até que Caxinas e a vila se engoliram recíproca e promíscuamente.

 

 

 

A "Mãe-coragem"

João-Afonso Machado, 23.02.12

Não estou, de modo algum, habilitado para saber se se fez justiça; ou se, meramente, se temeu cometer uma injustiça. A população de Lousada e arredores, muito mais convicta, quis aplicar cá fora a pena que lá dentro seria sempre inviável - o linchamento do arguido. Valeu-lhe a Guarda. Certo é, também, a sua vida nunca mais será a mesma. Uma outra forma de castigo, afinal.

Obviamente, venho referindo o célebre caso do desaparecimento do miúdo Rui Pedro, hoje (se vivo for) um homem... - Que homem, meu Deus! - perguntar-se-ão minuto a minuto, segundo a segundo, a sua Mãe, os seus familiares.

Esse o inocultável lado do drama. Porque o jovem pode mesmo já ter morrido - pode mesmo, por isso, já não sofrer. Mas a Mãe está cá (hora a hora, minuto a minuto, segundo a segundo...) suportando a angustia com que acorda de amanhã e adormece à noite.

Os entendidos em Psiquiatria são unânimes em relevar a importância do aparecimento: vivo, ou mesmo morto. É que a dúvida desgasta. Mata. E a certeza pode doer - e muito - mas tem pela frente um luto que se inicia e, ora mais cedo, ora mais tarde, cessa. Deixando a vida prosseguir.

De algum modo, esse um ponto em jogo ainda. A condenação do arguido não restituiria o filho aos seus progenitores. Mas teria, decerto, uma influência benigna, imprescindível, no seu estado  de espírito. Muita fé foi depositada nesse passo que não chegou a ser dado.

A Imprensa retrata a Mãe do Rui Jorge, desde o seu desaparecimento até ao presente. É impressionante medir nas rugas e naquela expressão desamparada o que terão sido, para a senhora, estes anos em que nunca desistiu de rever o filho.

Termino como principiei: não disponho de meios que me permitam sequer emitir um comentário critico sobre o acordão lido ontem. Mas compreendo a revolta das gentes. Aliás, uma revolta irmã gémea da insegurança geral em que o desfecho do processo se traduz.

Uma vez mais - fundadamente ou não - as instituições judiciais deram passos atrás relativamente à confiança que deviam merecer dos cidadãos. Em capítulos em que todos são especialmente sensíveis - esses que versam os nossos filhos.