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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Carnavalices

João-Afonso Machado, 22.02.12

Os foliões principiavam a chegar à mansão imensa, encasacados, esfregando as mãos, os pés bem carimbados no chão. Um frio dos diabos. Era Carnaval. Urgia divertirem-se. Obrigatóriamente, por defenição da efeméride. Um chão de tijoleira esperava-os, numa sala do piso da entrada. E assim se foi à música, aos primeiros passinhos de dança. Muito conversada, pouco abanada, menos convincente. Ordenando ao tempo não se demorasse a passar.

Os ritmos - irrepreensiveis. Próprios da geração que ali se juntava. Desses que deixam saudades a qualquer um. Mas a coisa continuava bastante de falatório, uns meneares, uma ou outra senhora mais habilidosa no saracoteio.

E o relógio, pasmão calaceiro, com os ponteiros na ponta do chicote. Sais, ou não sais, do sítio!, pareciam atirar-lhe à cara.

Até, finalmente, a ceia ser servida no andar cimeiro. Foi a debandada. Na sala ao lado, uma lareira acesa. Nem mais - uma crepitante lareira de Carnaval alimentada a serpentinas e outras peripécias entrudescas.

Foi assim. Um tinto muito razoável, os salgadinhos da praxe e os doces. Mais a bôla de carne. E as novidades em dia, desde antes do 25 de Abril até hoje. Sempre a dois palmos da lareira nesse espaço amplo onde todos cabiam em cadeiras ou, de esguelha, nos seus braços. Mas sem sofrer quaisquer horrores siberianos.

Para o ano será em Torres Vedras ou na Mealhada. Apertando o termómetro, em Loulé. Onde soubermos a cultura brasileira local sambe desnudada. Mesmo porque 2013 será já um ano de glória e o Governo, consabidamente, não questionará tolerâncias de ponto.

 

O Herói de Alberto

João-Afonso Machado, 22.02.12

«(...) Todos o conheciam, e ao seu parceiro, o Herói. Inseparáveis os dois, o Alberto e o seu cãozito, também ele de idade incalculável, o pêlo acastanhado e comprido, já um pouco ralo no dorso. Por isso censuravam as mamãs as suas achegas aos filhotes, tão a contragosto do Herói, que adorava crianças e sabia andar em duas patas.

Não tinha o Alberto um amigo mais fiel, um bem que lhe fosse mais precioso, latindo de manhã à noite o prazer que sentia em estar ali, os dias todos, na companhia do dono.

Residiam em lugar desconhecido, hoje acolá, provavelmente, amanhã além. O Alberto dispensaria a cama, mas o Herói, é certo, dormia sempre no seu regaço. Era, mais as suas frondosas barbas grisalhas, o cachecol, o quente que lhe secava a humidade das noites mais agrestes.

(...)

Eram noites em que o cantorio prolongava, junto do rumorejar das ondas, estranhos e tardios bafos oratórios. Como se cantasse chamando pelas estrelas quentes do Estio, à espera que S. Martinho acordasse e cantasse também.

O Herói gania em coro com aquelas estrofes sem silabas, sons levados pelo mar e pelo vento, perdidos na escuridão deserta da praia. Por vezes, alguém passava à distância e ouvia:

- Lá está o velho Alberto com a piela! Qualquer dia fica-se, de uma escorregadela no cais.

Mas não, quem adivinharia que, mesmo então, nessas madrugadas de hinos ao sol do Verão, o Herói lhe guiava os passos no breu, sempre à ilharga do dono, cravando, se necessário, os dentes no trapo que lhe cobria as pernas, a corrigir-lhe a trajectória? (...)».

 

(Vd. Os Heróis de Alberto, in Contos do Tempo, ed. DG Edições, 2008).