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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Ave

João-Afonso Machado, 19.02.12

Era (ainda deve ser...) uma querela constante entre os famalicences e os tirsenses. Famalicão ou Santo Tirso? Qual a mais importante? Havia argumentos para uma longa noite de despique.

Mas, no fundo, nós sabiamos que eles tinham o Clube Thirsense ( a rimar com o Portuense, e o funcionário Sr. Figueiredo, mal-encarado, também ele fardado, de laço ao pescoço, a disponibilizar o bilhar horas tardias), o Convento de S. Bento e, sobretudo, as águas vastas do Ave, uma ponte considerável logo à entrada da vila, hoje cidade, como mandam as regras autárquicas deste curioso País.

Dava-se o caso de a pesca ser lá. Em 1976, o transporte era a boleia, com as canas e os mais atavios, um dia nas margens do rio, e umas trutas de recompensa. Um-zero para Santo Tirso.

Depois, Portugal deu o seu melhor. As fabriquetas multiplicaram-se. Fugiram, quando não morreram envenenadas, as trutas. E o Ave tomou as cores das águas de limpeza de um tonel, montes de espuma, a modos de gel de banho, uma aqui, outra mais além, a terceira vindo já também. O dia todo.

O rio perdeu a vida, morreu, vazadouro imenso, e cheirava mal.

Famalicão- dois; Santo Tirso - um.

E a gente ria. Em Famalicão não existia semelhante esgoto a céu aberto...

Outros anos por cima. Os anos da "crise". Cerca de 200 tinturarias que impolutamente esgotavam para o Ave faliram. O rio tem recuperado as cores naturais. Dezenas de pescadores voltaram às suas margens. Sinal inequívoco...

E o mais extraordinário - há gaivotas em Santo Tirso. A umas dezenas de quilómetros do litoral.

Rendo-me.  Sem lixeiras à vista, as gaivotas significam peixe. O que comprovarei muito em breve. Se não der mais, continuem os tirsenses a dar peixe.

 

Memórias vilacondenses (V)

João-Afonso Machado, 19.02.12

Seguramente, a casa mais bonita da Bento de Freitas. E também a mais temida. Ou a mais apetecida... Rigorosíssimos critérios de "vilacondismo" de longa data presidiam à admissão dos seus comensais. Avaliações temíveis conquanto, na parte que me toca, deva dizer que passei logo à primeira, com "louvor e distinção"... Amigos de antanho, os donos da casa dos Pinto de Lima, hoje Dias-Costa.

E nesses tempo, mesmo por causa do cativante clima de Vila do Conde - gelado durante o dia, suportável à noite - a geração mais velha (gente já de muitos verões e nortadas lá na terra) confluia, logo após o jantar, para a esta casa de amplos, magníficos e generosos salões. Ainda assim, não o bastante para albergar tanta gente, tão grande era o grupo balnear de então.

Muitos ficavam no passeio, junto à janela da sala (aquela lá na ponta esquerda) e a conversa processava-se entre fora e dentro. Onde, sentado no sofá, rodeado das senhoras mais idosas, pontificava o Tio António Dias- Costa. No meu tempo, o mais sagaz e bem-humorado espírito daquela comunidade.

Sempre impecável nas suas calças azul-levezinho, de risquinha mais escura, a camisa em tons marinhos, o sapato italiano... Com os mais certeiros dizeres fosse sobre o que fosse. Fulminantes. Uma desgarrada sem música que ia noite fora e constituia sempre um momento único. Mesmo para nós, rapazes, por vezes parando também no passeio e ouvindo coisas sublimes, como aquela história em que tratou um dos "batedores" das traquitanas de Sintra por "Senhor Marquês de Marialva".

Agradáveis tempos, memórias que se nos agarram ao coração, firmes e leais. Saudosas e impressionadas por muitos dessas tertúlias já não estarem entre nós.