Ave
Era (ainda deve ser...) uma querela constante entre os famalicences e os tirsenses. Famalicão ou Santo Tirso? Qual a mais importante? Havia argumentos para uma longa noite de despique.
Mas, no fundo, nós sabiamos que eles tinham o Clube Thirsense ( a rimar com o Portuense, e o funcionário Sr. Figueiredo, mal-encarado, também ele fardado, de laço ao pescoço, a disponibilizar o bilhar horas tardias), o Convento de S. Bento e, sobretudo, as águas vastas do Ave, uma ponte considerável logo à entrada da vila, hoje cidade, como mandam as regras autárquicas deste curioso País.
Dava-se o caso de a pesca ser lá. Em 1976, o transporte era a boleia, com as canas e os mais atavios, um dia nas margens do rio, e umas trutas de recompensa. Um-zero para Santo Tirso.
Depois, Portugal deu o seu melhor. As fabriquetas multiplicaram-se. Fugiram, quando não morreram envenenadas, as trutas. E o Ave tomou as cores das águas de limpeza de um tonel, montes de espuma, a modos de gel de banho, uma aqui, outra mais além, a terceira vindo já também. O dia todo.
O rio perdeu a vida, morreu, vazadouro imenso, e cheirava mal.
Famalicão- dois; Santo Tirso - um.
E a gente ria. Em Famalicão não existia semelhante esgoto a céu aberto...
Outros anos por cima. Os anos da "crise". Cerca de 200 tinturarias que impolutamente esgotavam para o Ave faliram. O rio tem recuperado as cores naturais. Dezenas de pescadores voltaram às suas margens. Sinal inequívoco...
E o mais extraordinário - há gaivotas em Santo Tirso. A umas dezenas de quilómetros do litoral.
Rendo-me. Sem lixeiras à vista, as gaivotas significam peixe. O que comprovarei muito em breve. Se não der mais, continuem os tirsenses a dar peixe.

