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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Porque não Soares ou Sampaio?

João-Afonso Machado, 14.02.12

Timor Lorosae é credor de Portugal em, sem dúvida alguma, uns largos milhares de vidas dos seus cidadãos, perdidas em guerra civil ou na sequência da invasão da Indonésia. Porque, tal como nas mais provincias ultramarinas, os nossos governantes abrilinos nenhum escrúpulo tiveram em passar o testemunho a movimentos de inspiração (e prática) comunista. No caso timorense, a FRETILIN. O resto é demaisadamente sabido para que necessário se torne adiantar mais pormenores. Foi assim, ante a distracção de Lisboa e a ignorância do País em geral. E entre as raras vozes que levantaram o seu protesto, à frente delas todas, esteve a do Senhor D. Duarte, Duque de Bragança, o actual Chefe da Casa Real portuguesa.

Apenas o massador massacre do cemitério de Santa Cruz obrigou - pois que remédio! - as entidades oficiais a tomarem as "devidas" posições, obviamente de natureza diplomática. Felizmente para Timor, a Austrália está perto e não alinha em indecências...

Os anos passaram. E os poderes públicos timorenses vieram finalmente reconhecer quem, desde os "acampamentos" de refugiados no Vale do Jamor, sempre estivera do seu lado. Discretamente, desinteressadamente, empenhadamente.

De modo que, na pessoa do seu representante, a nossa Casa Real é hoje cidadã de Timor. Um ínfimo País? Perguntem a Soares ou a Sampaio se não gostariam de receber honra idêntica de S. Tomé e Princípe.

Quanta verborreia, que imensa comitiva Pacífico fora, se Ramos Horta se lembrasse de colocar ao peito de algum dos nossos Presidentes a Ordem de Mérito de Timor-Leste, atribuindo-lhe, concomitantemente, a nacionalidade deste País!

Mas não, a mercê recaiu sobre SAR o Senhor D. Duarte. Uns malandros estes timorenses!

E uma demonstração evidente de que a Coroa portuguesa não perdeu prestígio junto dos Estados lusófonos, tal como entre a maioria dos nacionais.

 

 

 

Memórias vilacondenses (IV)

João-Afonso Machado, 14.02.12

Era um edifício todo ele em pedra, recuado. Servido por alguns degraus de acesso e um pátio amplo e amurado. Com mesas e guarda-sóis, abrigando senhoras e senhores. No andar cimeiro, a varanda, umas tantas janelas e o espaço próprio para a orquestra, os bailes, o bridge. As noites de veraneio eram assim, então, oscilando entre a jogatana e o smoking, nesses tempos em que eu recolhia à cama quase logo após o jantar. Mas os primos encarregavam-se de me contar tudo. Com pormenor e com a minha memória...

Cá em baixo funcionava o snack, refeições ligeiras e cerveja tarde fora. Era o "bar". Mesmo nascido "Mar à Vista", nunca deixara, nem deixaria, de ser o "bar". Em cujos muretes se sentava a adolescência dos idos da minha infância, admirando as suas cigarradas, as pastilhas "Pirata", os sorvetes... E sobretudo os namoros, ali a dois passos dos pais, quaisquer beijocas trocadas à sorrelfa, a malta toda sentada de costas para a rua, camisola enrolada à cinta, farpelas femininas  de lã, sem mangas, indo do pescoço aos joelhos. No início do reinado dos jeans de boca-de-sino e dos Beatles e do ié-ié.

Depois era o movimento infrene das Vespas e das Lambrettas. Bordeaux, conforme a moda. E sem o guarda-lama das rodas dianteiras. Uma chinfrineira coroada de habilidades em duas rodas, incrivelmente sem trambolhões ou outras mazelas.

Eram estas as tardes vilacondenses. Quando as cabeleiras da rapaziada começavam a crescer, a Assembleia se via a braços com um ou outro gesto mais anglicista, mais libertário, a semear o pânico entre as hostes dos avós e dos pais (sobretudo das mães) e a vida continuava com o mundo a anunciar em voz alta que ia mudar. Como se o Titanic já fosse afundando e a orquestra da Assembleia continuasse, impávida, a tocar.

Para nós, os "putos", sobrava o cheiro a casca de camarão e bicharada congénere, no dia seguinte, na esquina da Bento de Freitas, incontornável nas rotas para a praia, porque os caixotes estavam lá e os lixeiros haviam de ser madraços.

Deste modo chegámos a hoje. À implosão do "Mar à Vista" e a este seu sucessor. Com a maior saudade dos bailes a que nunca fui, das primas giraças que viravam o rabo para a rua, nas amuradas do "bar" - quando, hoje, já falamos de igual para igual... - e do pivete a marisco da véspera. Por tudo, pelo nada do sentido das coisas, migrei. Defenitivamente.

 Vila do Conde - a velha Vila do Conde - que saudades...