Das "Memórias de Um Átomo"
«Fora notícia: o senador morrera de uma bala certeira no coração. Capturado e prontamente julgado, o autor do atentado sofreria pena capital. Depois de amanhã, por esta hora...
A indignação tomou conta dos republicanos portugueses. A condenação à morte era a maior cuspidela na sua Ética. Convocados por Soares Pai, compareceram todos no local escolhido: o sótão de Alegre. Para ser mais democrático, mais clandestino.
O anfitreão, sempre grave, sempre patrióta, acolhia-os de braços abertos, emocionadamente:
- E o Aquilino, o Tito, o Rego, o Cal?
Soares Filho viu-se obrigado a lembrar-lhe que esses convivas haviam já morrido. Mas todos se curvavam ante a sua memória...
- Ah, pois! Já me esquecia. A mim não há quem me mate! Só a morte!
E passaram à ordem do dia: a viagem aos EUA para uma manifestação pelo direito à vida, junto da prisão do Texas.
Simplesmente... eram poucos, não os bastante para erguerem a bandeira da República e uma tarja alusiva. Além de que as deslocações estavam caríssimas e rareavam as sinecuras.
- Oh Reis, vê lá se arranjas algum...
- Eu? Quem manda agora é o Lima. Falem com ele...
Alguém sugeriu também contactassem o PSD. Que diabo! Neo-liberais, ninguém o negava, mas nem todos destituidos da Ética republicana.
- Vou ligar à Mozart!
- Eh pá, para essa não! Consta que o pessoal não paga as contas e já lhes cortaram o telefone.
E a reunião (o complot) ameaçava ficar nisto: na contagem de espingardas - escassas - e dos pecúlios - já não os de outrora... Desanimadamente. Foi quando alguém lembrou:
- Vocês sabem, faz hoje 104 anos mataram o Rei D. Carlos e o Princípe.
Instalou-se o júbilo total!
- Rapazes: temos mesmo de ir aos EUA. Além da Fraternidade comemoramos também a Liberdade e a Igualdade».
(Com a devida autorização do meu Amigo J. da Ega, a quem muito grato sou).

