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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Das "Memórias de Um Átomo"

João-Afonso Machado, 01.02.12

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 «Fora notícia: o senador morrera de uma bala certeira no coração. Capturado e prontamente julgado, o autor do atentado sofreria pena capital. Depois de amanhã, por esta hora...

A indignação tomou conta dos republicanos portugueses. A condenação à morte era a maior cuspidela na sua Ética. Convocados por Soares Pai, compareceram todos no local escolhido: o sótão de Alegre. Para ser mais democrático, mais clandestino.

O anfitreão, sempre grave, sempre patrióta, acolhia-os de braços abertos, emocionadamente:

- E o Aquilino, o Tito, o Rego, o Cal?

Soares Filho viu-se obrigado a lembrar-lhe que esses convivas haviam já morrido. Mas todos se curvavam ante a sua memória...

- Ah, pois! Já me esquecia. A mim não há quem me mate! Só a morte!

E passaram à ordem do dia: a viagem aos EUA para uma manifestação pelo direito à vida, junto da prisão do Texas.

Simplesmente... eram poucos, não os bastante para erguerem a bandeira da República e uma tarja alusiva. Além de que as deslocações estavam caríssimas e rareavam as sinecuras.

- Oh Reis, vê lá se arranjas algum...

- Eu? Quem manda agora é o Lima. Falem com ele...

Alguém sugeriu também contactassem o PSD. Que diabo! Neo-liberais, ninguém o negava, mas nem todos destituidos da Ética republicana.

- Vou ligar à Mozart!

- Eh pá, para essa não! Consta que o pessoal não paga as contas e já lhes cortaram o telefone.

E a reunião (o complot) ameaçava ficar nisto: na contagem de espingardas - escassas - e dos pecúlios - já não os de outrora... Desanimadamente. Foi quando alguém lembrou:

- Vocês sabem, faz hoje 104 anos mataram o Rei D. Carlos e o Princípe.

Instalou-se o júbilo total!

- Rapazes: temos mesmo de ir aos EUA. Além da Fraternidade comemoramos também a Liberdade e a Igualdade».

 

(Com a devida autorização do meu Amigo J. da Ega, a quem muito grato sou).

 

Os tempos têm fim

João-Afonso Machado, 01.02.12

Percebi o esforço, essa intenção de se irmanar aos botes, chamá-los pelos nomes. De viver os seus dias na baía, tratando-lhes das velas, a mão dada a namorar-lhes o leme. Era uma história de infância com o berço vagamente deslocado, o leite cedido pelo biberon de alguém mais compadecido. Porque nada acontecera, nem aconteceria depois. Fora apenas um momento de euforia, talvez um efeito do multicolorido dessas horas festivas.

Não tornaram os botes. Não tornaram, é claro, à conversa e à pretensa erudição das suas palavras, porque na realidade os botes estão lá, na constância dos seus navegantes.

Sempre foi assim. Aceitem-no os botes, aceitemo-lo todos. Os tempos têm fim, e o fim dos tempos é o apagar da memória. Quando se erguem já as chamas da desvergonha.