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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Manhãs de galinholas

João-Afonso Machado, 21.01.12

Não são excessivamente madrugadoras. Nem muito tardias no regresso a casa. Faladoras quanto baste, por vezes empenhadas na travessia dos silvados ou de amontoados de lenha. Quando decidem interromper a conversata. Gozam os progressos das cadelas e tomam-se de excitação quando alguma dá sinal: será o quê? Galinhola?

Sonhada silhueta, sempre mais apenas isso - sonhada silhueta. Os tempos já não são de fetos e folhas acamadas, como a vida antigamente decorria debaixo dos arvoredos. Essa praga das silvas, do mato, das ramagens no solo... Vai-se acabando a arte para os artistas.

São assim as manhãs às galinholas. Sob um frio que as pernas e o andar ajudam a esquecer. Com o anedotário próprio das marchas lentas porque os dias resultam nisso mesmo: em colecções de episódios onde raramente o caricato não está presente. São assim essas manhãs. Estimulantes de um bom almoço, frondosas, sem ambições de façanhas, bem respiradas. As cadelas é um gosto vê-las em acção. E uma vez chegará que...

 

Claques sindicais

João-Afonso Machado, 21.01.12

Será que o nosso desventurado País é contemplado com um (o mais duradouro possivel) desaguisado entre as centrais sindicais? Assim algo parecido com um insanável conflito envolvendo claques futebolísticas... Quem nos dera!

Antes da avalanche de confusões, o devido esclarecimento. Ninguém está contente com o dia-a-dia. Há quem viva o terror da carestia total, há quem sinta cada vez mais espartilhos, e certamente muitos mais sentirá ainda. Simplesmente, o caminho preconizado pela Esquerda ortodoxa... não é caminho!

Acresce o clima de instabilidade e insegurança gerado por grupos, ideológicamente mal defenidos, já se percebeu buscando a agitação pela agitação. Esses que procuram a vitimização através do confronto fisico com as forças de segurança e se aproveitam, para o efeito, das grandes manifestações sindicais.

Tudo somado - e porque, acredito, mais infantilidades, menos infantilidades, o Governo é povoado de gente bem-intencionada - um pouco de paz nas ruas só será benévolo.

Para tanto, contariamos com a UGT e a CGTP comiciando à bulha, os tais indefenidos sem boleia que lhes aproveitasse, e nós sofrendo o inevitável mas com esperança e sossego dentro do possivel.

A modos de uma urbe coalhada de claques benfiquistas, sportinguistas e portistas em peleja acesa, enquanto o pacato cidadão assistia calmamente ao jogo da bola na televisão.

 

Tempo, Tempo, nós e depois de nós.

João-Afonso Machado, 19.01.12

Foi doloroso mostrar esse tronco enorme, que um homem não abraça, à ausencia do Tempo. Porque, afinal, tudo era hoje, além de frases acesas de felicidade. Como se à árvore não tivesse custado erguer-se e ao homem mantê-la. Nesse instante ficou claro que a verdade era subi-la apenas. Mais a oportunidade de um retrato, porventura.

Longe a ideia da génese e dos séculos. Assim terá principiado o fim. Um homem viverá, talvez, e morrerá pobremente. O cedro conheceu os seus antepassados e ela não ouviu a brisa, esse soprar das ramagens sem dúvida reprovando. Quer queiramos, quer não, havemos de partir antes do cedro. De outro modo, a existência não se fazia de elos, antes de toros de madeira. E não, isso não serve. Como sempre, a poesia está primeiramente nos olhos, não são alinhavos papagaiados. O Tempo é um templo. Mesmo se a sua entrada nos seja vedada.

 

 

O feriado da Nacionalidade

João-Afonso Machado, 18.01.12

Bradava Manuel Alegre, na-sua-costumeira-expressão-ética-de-quem-utiliza-a-viatura-do-Estado-para-ir-à-caça, que "nem Salazar se atreveu a mexer no feriado da República".

Pois não. A Salazar, republicano sabidola, convinha um regime em que o prestígio de uma Chefia de Estado dinástica não fizesse sombra aos seus propósitos autocráticos.

Convergem - Alegre e Salazar - na crença em algo, julgo que não um Ideal, mas seguramente um apetrecho - de ascenção e perpetuação dos poderosos da classe política.

Desta feita, a manutenção do feriado comemorativo da implantação da República (em preterição do da Restauração) é, simplesmente, uma afronta à Nacionalidade.

Mas há bom remédio para o ultraje: comemoremos, nós portugueses, nessa data, como sempre, a Fundação de Portugal. E veremos quais as cerimónias mais participadas: se as anquilosadas e esclerosadas idas aos pés de bronze de António José de Almeida, se as nossas manifestações em Guimarães, Coimbra ou em qualquer outro lugar onde queiramos festejar oito séculos de História e esquecer cem anos de descalabro.

 

O Coelho

João-Afonso Machado, 17.01.12

O coelho é um roedor e, como tal, há de estar sempre a dar à boca, sob pena de os dentes crescerem exuberantemente e ele morrer da atrofia.

Logo após a descoberta de Porto Santo, os portugueses, na sua ingenuidade, introduziram o coelho na ilha. O resultado foi uma praga - não houve couve que se aguentasse - depois sabiamente controlada.

De modo que o coelho foi quase erradicado do arquipélago e a banana plantou-se e vingou. Mas... todo o coelho? Não! Um resiste ainda, vitoriosamente, fazendo o maior cagarim próprio da espécie, roendo, moendo, enegrecendo lugares de suposta respeitabilidade.

Ou não. O Coelho, baptizado Zé Manel, fugindo de qualquer programa humorístico, vive sereno no seu habitat funchalense, dando-se ao luxo de empurrar, agredir, a vizinhança política.

Se assim é, na Madeira reside, afinal, uma democracia mais-que-perfeita. Ou então Portugal é, sobretudo (ou somente), a República portuguesa.

 

Concertação social

João-Afonso Machado, 17.01.12

Em 25 anos de advocacia posso garantir nunca ter assistido à sinistra situação de um patrão querer despedir um trabalhador "porque sim". Porque tinha implicado pessoalmente com ele. Ao invés, presenciei muitos casos de empregados tudo fazendo para provocar o empregador e levá-lo a uma precipitada decisão nesse sentido. Empregados esses que tudo faziam para fazer o menos possivel, em atitude de menosprezo, negligência, absoluto desinteresse pelo destino da entidade que lhes assegurava o ganha-pão. Porquê? Porque o salário estava garantido, falhando o salário sobreexistia o fundo de desemprego, e não é tradição dos tribunais laborais portugueses algum trabalhador regresse de um litigio sem algo a rechear-lhe o bolso.

Recordarei sempre a frase de um juiz que me segredava - O Sr. Dr. faça um acordo que eu já fiz a sentença... Representando eu a entidade patronal, qual a margem subsistente para discutir o litigio?

De tudo, a conclusão há muito formulada: o foro do Trabalho é, sobretudo, um lugar de militância política. Com o mais que isso possa prejudicar a nossa Economia.

Tal situação era (é?) impossivel de sustentar.

E, sem pormenorizar sobre o acordo de concertação social hoje alcançado (?), diria que, se algum passo em frente foi dado, foi no sentido de não haver abuso do trabalhador sobre o empregador. Contrariando a velha e obsoleta máxima de Karl Marx. Porque um patrão sabedor - já não digo inteligente... - dos seus interesses de classe e astuto, há-de saber distinguir - recompensando-o - o bom trabalhador do calaceiro.

Não responderei a comentários glosando o mote "servilismo". O tempo dirá se não é como digo.

 

 

Laranjas, nunca pior.

João-Afonso Machado, 16.01.12

Porque deve ser mais fácil e atractivo criticar, maldizer, do que deixar uma palavrinha de incentivo e reconhecimento, aí temos, normalmente, o Governo sob fogo cerrado, pontaria afinada aos tiques e deslizes dos ministros.

Os portugueses gostam assim. Como ontem expressava Ricciardi, em entrevista ao DN, este Governo arrisca-se a ser o mais corajoso da "História da Democracia". Está , quiçá surpreendendo-se todos os dias com mais um calote da "herança Sócrates". Está, e tudo leva a crer continuará a estar, mesmo se e quando o barco for ao fundo.

De modo que talvez merecesse um pouco de compreensão nossa. Quanto mais não seja porque entre a aparência filosófica-pantomineira de Sócrates, mestre em inglês técnico, e um Passos Coelho que ainda se deixa estar por Massamá, vai um oceano imenso de diferenças. Onde os cardumes de sardinhas, alimento para toda a gente, são ensombrados pelo espectro dos patos-bravos rumando Paris e outros auto-exílios dourados.

Valha ao menos a Natureza: não distribui isqueiros mas farta rópia de laranjas. Publicidade vitaminada.

 

Maçãs e maçons

João-Afonso Machado, 15.01.12

A maçã é, biblicamente, o instrumento do pecado. Foi por comerem uma, decerto sumarenta, enganosa, que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Por isso, sim, é natural que o feminino de "maçon" seja "maçã". Ou pode passar a ser. Importante é fazer luz sobre esses compassos e esquadros. Sobre esses olhos gulosos postos no mundo profano, o dos comuns mortais.

E porque não será decerto a descrição de António Reis - a típica silhueta do maçon... - a fornecer-nos essa informação ou, como ora se diz, a sua "agenda" de actividades nos meandros da vida real, é-nos licito especular. Pelo sim, pelo não...

Assim parece acontecer por essa provincia fora. Com humor, com rigor, com ardor - como for. Mas sempre de modo a que fiquem claras as negativas intenções da Maçonaria. Como a História não facciosa bem demonstra. Qual Liberdade!? Qual Igualdade!? Qual Fraternidade!?

 

 

S. Vicente

João-Afonso Machado, 14.01.12

Cronológicamente, é a primeira romaria do concelho de V. N. de Famalicão. Posta no cimo de um monte onde, em dias de boa visibilidade, se alcança Barcelos lá longe, esmifradinha, mas sempre terra do "duque nosso snor". É o S. Vicente, falando ao coração das nossas gentes que, nos baptizados, usa e abusa do seu nome. Estão chegando os peregrinos e as suas ofertas. Mais além, um grupo numeroso e ruidoso, outro costume da terra: são os caçadores, em final de época, comentando - sinuosiando...  as suas proezas. Com recíproca partilha dos seus comes e bebes... até ser noite, quando o frio já passou...

Na freguesia de Sezures, perdida no topo da elevação, recortada pelo traçado da A3. Onde, tantas vezes, me encontro com tantos amigos. E onde a vida prossegue para lá das questiunculas políticas que decorrem 300 km a sul...

 

 

De azul

João-Afonso Machado, 14.01.12

Estranho jantar de um azul sem pressa no olhar. Um azul enorme e aceso, enfim decidido a contar a sua vida, estranhamente igual à de toda a gente. O outro lado do mundo um devaneio apenas, uma recordação, o quotidiano são os dias árduos. Aqui.

Assim o azul se tornou mais próximo, mais distante dos lampejos do sol. E havia percursos comuns, lugares revisitados, o azul omnipresente. Sem raminhos de poesia pendurada nem pedras nas algibeiras.

Somente... ficou de azul o estranho jantar em palavras firmes e intenções claras e declaradas, ouvidas e não rejeitadas.