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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Socialites

João-Afonso Machado, 09.11.11

E ontem, enfim, aprendi o que eram socialites. Graças a uma excelente reportagem televisiva em que a autora, uma senhora corajosa e compincha, de tanto perseverar lá conseguiu, à terceira tentativa, a sua fotografia numa revista da especialidade, mano a mano com um personagem dúbio. (A não descrever, por prudência, posto a homofobia ser acusação fácil e crime deplorável ou, pelo menos, pecado civilizacional grave neste nosso tão progressivo Portugal. Adiante.)

De modo que urgia revolucionar a indumentária da repórter, o seu penteado. As ordens do seu orientador, muito de melenas desproporcionadas e um lenço que borboleteava para fora do bolso da lapela, eram claras: novo visual, mais atractivo. Essa história do “look” e do “fashion”… Ela ria, submetia-se e lá cumpria o seu fadário, com a determinação de quem sobe o Kilimanjaro.

Depois aconteceu de tudo. Uma jovem, um recentemente desfeito casamento com um futebolista, uma vocação descoberta: socialite. E o País atravessado de lés-a-lés, festarolas e cachets. Nada mau, hã?! Tudo por troca com uns sorrisos (percebi ser essencial, nestas andanças, possuir boa dentição), uns jeitinhos marotos na pista de dança, o decote comme il faut. Mais nada!

As explicações finais couberam à geronte Lili Caneças. No ginásio, cercada por uma multidão de massagistas que lhe ajeitavam a carcaça. Lili, não apenas glorificou o bom povo português, o povo rude e simples que não merecia as suas “elites políticas” (!!!), como também foi enumerando a muita gente que lançou neste onírico mundo cor-de-rosa. O que, de resto, foi confirmado por um dos seus pupilos, filosofando sobre os engulhos da ascensão à classe e da manutenção nela, tudo porque “quem não aparece esquece” e ai dos que caem na desgraça dos fotógrafos, socialite é, de facto, uma profissão de risco.

Por isso, não sendo futebolista, nem actor, nem empresário da noite, nem bem relacionado entre as gentes da fotografia, percebi jamais seria socialite. Até porque de Peugeot não vou a lado algum… 

 

 

Justiça popular

João-Afonso Machado, 07.11.11

Os ladrões foram travados por populares. Excelente! Ao que parece eram estudantes, não se sabe exactamente de quê, mas não é impossível frequentassem a, aqui no Porto, chamada “Universidade da Areosa”… Enfim, a proeza ocorreu no Carregado, em mais um assalto a uma joalharia, e lojistas vizinhos e transeuntes, todos deram uma mãozinha de que resultou a frustração do golpe, um fugitivo e um capturado. Na reportagem em directo, antes do telejornal, Serenella Andrade, excitadíssima, entrevistava, entrevistava, entrevistava (assim silenciando Jorge Gabriel e Sónia Araújo) e lá fomos percebendo que o rapaz estava vivo. A polícia chegaria a qualquer momento para o levar ao cumprimento das formalidades.

Já a semana passada, em Guimarães, os “populares” deitaram o laço a dois assaltantes, desta feita de uma residência. Uma vez mais a policia acorreu quando pôde, tendo-os recebido e conduzido em muito fraco estado de conservação.

Portanto está tudo mal. Nem existe policiamento nem existirá conta peso e medida na acção directa ou no estado de necessidade. Muito provavelmente não escassearão casos de enganos, confusões ou mal-entendidos a provocar as suas mossas em pobres inocentes. Enquanto a polícia não vem, é claro.

São questões que têm a ver com o Estado de Direito. E com o “Estado Social” também – porque dentro das funções deste inclui-se a de garantir a segurança dos cidadãos. No que, todos sabemos, vem falhando redondamente.

E enquanto Serenella Andrade, excitadíssima, entrevistava, entrevistava, entrevistava, em nota de rodapé via-se o título da reportagem: “Justiça popular”…

 

Histórias da Carochinha

João-Afonso Machado, 06.11.11

Foi um fim-de-semana de caça maior. Javalis, supostamente. A rapaziada esteve lá entusiasmadíssima, uma batida como deve ser, com o seu momento alto, depois de um alarido altíssimo, quando o Luís pisteiro disse que era por ali – ali havia manifesta pista de bicho recente.

O grupo organizou-se. Íamos no encalço do animal, espingardas aperradas. Em fila, os mais novatos carregados de interrogações:

. É javali?

E o Luís pisteiro lá respondia, palavras vagas:

- Porcalhona!

Armas na mão, o coração a bater forte, em passo de marcha, corremos o trilho da porcalhona. Ofegantemente, até.

Demos com ela, enfim. Com a porcalhona, enfocinhada numa fossa de papeis, atolada, aquilo eram mails inventados, folhas esvoaçantes, cartas anónimas, escritos forçados, uma bestialidade desmesurada. Alguém apontou, alguém bradou:

- Mata!

Mas o Luís pisteiro, de braço ao alto susteve a turba:

- Eh lá!,

porque a bicha já não merecia a despesa de um disparo, porcalhona cercada e moribunda, os cães às pernas, o Stalone (rafeiro valente!) a roê-la lentamente, a Moelas traçando-lhe a pescoceira… Não valia a pena! Papeis de caganeira, uma mancha negra na sua bochecha, tinta espúria, veneno, apenas veneno. E na agonia da porcalhona, já quase só se ouvia

- Rónhónhó, rónhónhó, ronhonhó!...,

os grunhidos agonizantes da porcalhona, as cerdas da sua cabeça e o corpo roliço, já despelado, como um rolinho de massa com bacon, enjoativo, luzidio, um horror! Os podengos encarregaram-se do resto. E agora?

A bicha era feia, nem se lhe distinguiam as formas. Ainda assim decidimos trazê-la. Veio de rastos. E, na hora da repartição, posta a hipótese de a retalhar, o Zé Rebito, um caçador lá da terra, profundo conhecedor dos matos, sempre foi dizendo:

- Eh pá! Vocês vão comer a Ritinha? Gaita! A bicha já foi furada por disparos e cães, quantos há. Não queiram isso! Carne podre!

Porque era porcalhona velha…

E ali ficou, o eco da sua existência

(- Rónhónhó, rónhónhó)

entregue aos abutres, carcassa de merda, nem para comer nos servia.

 

 

De partida (para onde?).

João-Afonso Machado, 04.11.11

Em anos idos passeávamos tardes inteiras, eu e o Pai, nos campos onde o gado pastava pachorrentamente – o Pai montando uma égua sorraia que descobrira na feira de Famalicão (uma boa escola de manhas, diga-se) e baptizara de Alentejana; eu, uma outra égua de consagrado ferro lusitano, branca, Maestra de seu nome, antes pertença de um capataz numa coudelaria do Sul.

Era um trotezinho inocente, uma conversa troteada, a semear a curiosidade entre as torinas, sempre dadas ao leite, incapazes de alcançar como alguém se alçara para o lombo de uns semelhantes seus. A mugirem de espanto, talvez de medo, não fosse acontecer-lhes igual desdita…

Saudosos momentos que mais nos prendem à nossa terra, onde o nosso sangue se enraizou há já tantas gerações de avós. E o tempo sempre no seu incansável compasso, a não consentir agora o Pai cavalgue mais; a mim mesmo desviando as minhas atenções, os meus afazeres, para outros capítulos. A equitação ficou para os mais novos, os cavalos são deles.

Mas porquê o doce sabor destas memórias, logo hoje que deixo o Minho por três dias? Porquê?

Talvez porque desconheça o estado – nervoso, mas manso, incapaz de escoicear, como a Maestra? - em que encontrarei esse meu recanto no regresso…

 

A Grécia no centro do Mundo

João-Afonso Machado, 03.11.11

Parece termos volvido uns milénios na História, até aos clássicos conflitos no Peloponeso. A velha Hélade torna a estar no centro do Mundo. Algo me diz que, como então, cheia de saber, fervilhando de intriga.

A ideia de Papandreou – referendar a manutenção na Zona Euro, basicamente – é democrática e perturbadora. E imprevista, a colher totalmente de surpresa os «bárbaros» que vão exercendo o seu domínio financeiro sobre essa vetusta fonte de filosofia.

É bem certo, ainda ignoramos se tal projecto irá para a frente. Mesmo porque Atenas, Esparta, Mileto, Tebas, Micenas, Éfeso… nunca constituíram edificantes exemplos de unidade política. O entrechocar dos gládios far-se-á ouvir primeiramente entre as sucessivas oposições, cisões, fusões, coligações e demais movimentações próprias do berço dos areópagos.

Todavia, a acreditar que os helénicos, fartos de privações, colhem a simpatia de Zeus, - onde alcançará a ira dos seus raios de fogo? Pobre Mediterrâneo, em que à boca cheia já se comenta nem Espanha nem Itália lograrão escapar!

E daí os insistentes pedidos de clemência, vindos de muito além do Helesponto: trazidos com recados de prudência dos (afinal) também aflitos «mercados» da Índia e da China.

Talvez haja em toda esta realidade um essencial princípio de reflexão, ancorado no austero saber das civilizações mediterrânicas: ricas em azeite, ricas no vinho e nos queijos, ricas no clima, nas suas águas marítimas, na beleza natural dos seus lugares. Algo que a Humanidade dir-se-ia ter desprezado, ao optar por outro tipo, não sei exactamente qual, de felicidade.

 

"Portugal Contemporâneo"

João-Afonso Machado, 02.11.11

Em entrevista ao mais recente Boletim da Ordem dos Advogados, o Presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d'Oliveira Martins, perguntado como via o País daqui a 20 anos, respondeu: «Tenho de o ver de uma forma positiva, uma vez que o progresso, o desenvolvimento, a liberdade, são exigências postas à nossa sociedade. Estamos a falar de um País com nove séculos de história, feita de vicissitudes, dificuldades. Mas se chegámos aqui com todas estas dificuldades, vamos continuar».

Sempre louvável o optimismo do Dr. Oliveira Martins!

Não me abstenho, contudo, de aqui deixar o testemunho do seu tio-trisavô, Joaquim Pedro de Oliveira Martins, socialista, filósofo, ministro da Fazenda no Governo chefiado por José Dias Ferreira (1893), no final do seu imorredoiro Portugal Contemporâneo: «O que eu daqui estou vendo, ao pôr as últimas palavras nesta obra triste, é o leitor irritado amarfanhar o livro nas mãos, pisá-lo com os pés, vingando-se do atrevimento de quem lhe disse coisas que tanto o ofendem. (...) Também os médicos, por via de regra, escondem às famílias a gravidade das doenças; umas vezes não as percebem, outras convém-lhes mentir, para não assustar! Assim estão as classes que nos governam; e até hoje, força é dizer que o povo ainda meio de se libertar delas. Nem descobriu o meio, nem demonstrou a vontade. Dorme e sonha? Ser-lhe-á dado acordar ainda a tempo?».

 

 

O par

João-Afonso Machado, 02.11.11

Nem desconfiança nem amúo. Somente a surpresa de quem vai descobrindo a vida. Pêro e Tareja. Têm pela frente um longo olfacto, do tamanho dos seus dias, uma corrida enorme atrás das codornizes e das perdizes, todo o sucesso que a sua planta não esconde. Dignos filhos dos seus pais. Vamos deixar os rodriguinhos, que o treinamento está à porta.

 

Cores de Outono

João-Afonso Machado, 02.11.11

Não o vivemos do lado de dentro da vidraça, buscando beleza, inspiração, a frase ideal. O Outono faz parte da nossa existência, dos dias em que lhe suportamos o vento ou nos enchumbamos nas suas chuvas. Na quase-certeza (porque o mundo tornou-se outro…) de que o ciclo prosseguirá com o gelo e os nevões, até ao renascimento da natureza. Não sem que antes as camélias dêem um ar da sua graça e a garça tome novamente conta dos ares, voando de charca em charca.

Mas as horas trazem agora outro encanto. Cheiram a castanhas assadas e ao entardecer à lareira. Mesmo os equídeos não sofrem o tormento das moscas e gozam pacatamente a sua liberdade. E a floresta parece acordar em tons pardos e um forro novo de folhas secas, aliviada da iminência dos fogos.

Entre o contraste das cores outonais, decorre o tempo minhoto. O tempo de quantos mais sentem o que vivem e escrevem o que sentem.

 

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