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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Durante as perorações dos poderes públicos

João-Afonso Machado, 28.11.11

Com 19 unidades do Banco Alimentar Contra a Fome, em funcionamento activo e empenhado, se recolheram umas largas centenas de toneladas de alimentos pensados para o Natal dos mais desfavorecidos. Não é novidade. É somente a confirmação de que, há já um punhado de anos, enquanto o Estado enche a pança e cobra impostos para não perder a linha curva, os privados se solidarizam e pensam em quem sofre toda a casta de privações.

Ainda agora, do mesmo passo que os partidos com assento parlamentar discutem a redução dos feriados civis... Haverá feriados para os desempregados? Com que alegria eles não os trocariam por dias de trabalho! E para os sem-abrigo? Será que a manutenção dos feriados lhe garantirá o costumeiro volume de esmolas?

Assim também as Misericórdias dão o litro e se substituem ao "Estado Social". Sem tributações de auxilio... E quantas outras entidades privadas!

Depois, na hora certa, virão as palavras da saudação e votos natalícios. Engravatadamente, solenemente, com a bandeira rubro-verde por trás e discursos apelando ao espírito de sacrifício, à esperança em melhores momentos. Tudo porque os parlamentares ainda não atinaram com a fórmula mágica e o Governo todos os dias tropeça em novos buracos...

Enfim, creiamos que, apesar disso, para quase tudo há remédio. Quem pouco tem, com pouco se contenta. A felicidade possivelmente não será assim dificil de atingir. A não ser para alguns, porventura com os bolsos bem forrados mas... despidos de gente à sua volta. Insolidários e não susceptiveis de solidariedade. Esses, tenho ouvido desabafar, detestam o Natal.

 

 

No dia seguinte

João-Afonso Machado, 28.11.11

Foi uma manhã toda. A terra mole é dura de andar, crescendo em redor das botas, como se estas fossem aumentando de volume e peso. E a planura do Alentejo é uma miragem. Depois de um cabeço há sempre outro cabeço. Mais os intervalos espessos de carrasqueiras e sobreiro, de mato e estevas. Aqui e além uma sucessão de tiros, foi bando que levantou. Deste modo, a perder de vista.

Mas vale a pena. Lava o espírito, enrijece o corpo, prepara a gente para outros balanços. E nem todos têm o privilégio de gozar um panorama assim, espaço, natureza, ar puro sem fim, o horizonte inteiro por sua conta.

No regresso, estradão fora no jipe, é como se a criação percebesse fora assinado o armistício. Passeando à nossa frente, nem o barulho dos motores as assustam. Limitam-se, prudentemente, a afastar-se para a berma, como qualquer transeunte. Tudo tem o seu momento. O almoço dos homens e o almoço das perdizes também.