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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Histórias da Carochinha

João-Afonso Machado, 06.11.11

Foi um fim-de-semana de caça maior. Javalis, supostamente. A rapaziada esteve lá entusiasmadíssima, uma batida como deve ser, com o seu momento alto, depois de um alarido altíssimo, quando o Luís pisteiro disse que era por ali – ali havia manifesta pista de bicho recente.

O grupo organizou-se. Íamos no encalço do animal, espingardas aperradas. Em fila, os mais novatos carregados de interrogações:

. É javali?

E o Luís pisteiro lá respondia, palavras vagas:

- Porcalhona!

Armas na mão, o coração a bater forte, em passo de marcha, corremos o trilho da porcalhona. Ofegantemente, até.

Demos com ela, enfim. Com a porcalhona, enfocinhada numa fossa de papeis, atolada, aquilo eram mails inventados, folhas esvoaçantes, cartas anónimas, escritos forçados, uma bestialidade desmesurada. Alguém apontou, alguém bradou:

- Mata!

Mas o Luís pisteiro, de braço ao alto susteve a turba:

- Eh lá!,

porque a bicha já não merecia a despesa de um disparo, porcalhona cercada e moribunda, os cães às pernas, o Stalone (rafeiro valente!) a roê-la lentamente, a Moelas traçando-lhe a pescoceira… Não valia a pena! Papeis de caganeira, uma mancha negra na sua bochecha, tinta espúria, veneno, apenas veneno. E na agonia da porcalhona, já quase só se ouvia

- Rónhónhó, rónhónhó, ronhonhó!...,

os grunhidos agonizantes da porcalhona, as cerdas da sua cabeça e o corpo roliço, já despelado, como um rolinho de massa com bacon, enjoativo, luzidio, um horror! Os podengos encarregaram-se do resto. E agora?

A bicha era feia, nem se lhe distinguiam as formas. Ainda assim decidimos trazê-la. Veio de rastos. E, na hora da repartição, posta a hipótese de a retalhar, o Zé Rebito, um caçador lá da terra, profundo conhecedor dos matos, sempre foi dizendo:

- Eh pá! Vocês vão comer a Ritinha? Gaita! A bicha já foi furada por disparos e cães, quantos há. Não queiram isso! Carne podre!

Porque era porcalhona velha…

E ali ficou, o eco da sua existência

(- Rónhónhó, rónhónhó)

entregue aos abutres, carcassa de merda, nem para comer nos servia.