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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Sofrimento e revolta

João-Afonso Machado, 06.09.11

Subitamente, num almoço de amigos, a conversa começou a alinhar por trilhos mais sérios. Sofrimento e revolta. Algo tão permanentemente tão perto de nós... Todos os dias os dias presentes, todos os dias ameaçando efeitos terriveis... Quem não sofre?, quem não se revolta?

Quer-me parecer, todavia, realidades - obviamente - diferentes, dimensões sobrepostas, origens díspares, metas antagónicas quantas vezes.

O sofrimento implica a dor. O sacrifício. Corresponde, frequentemente, a uma opção. Um meio de alcançar um fim. Tem (normalmente) a sua compensação, se assim for. Ou, pelo menos, a sua justificação. Em outros casos, é retundantemente involuntário. Ainda então, o sofredor logrará ver a luz ao fundo do túnel, circunstância que o impele a reagir. Enquanto há vida há esperança - diz-se comunmente. O sofrimento é, desta feita, uma faceta da luta pela vida. Menos mal.

Já com a revolta o caldo se afigura completamente entornado. O revoltado sofre, note-se. Mas os seus males advém sobretudo da percepção da injustiça sobre ele pesando, da sua impotência para pôr cobro à mesma, da noção da voz que berra e clama por dignidade e ninguém a ouve.

Em sofrimento pode não existir solidão. Na revolta, ao contrário, o sentimento predominante é o do isolamento do revoltado face ao mundo, seja qual for a circunscrição deste.

Por isso o sofrimento é por regra calado. E a revolta um alvoroço tanto maior quanto o conjunto de revoltados unidos na mesma vontade de aniquilar a mentira e restaurar a verdade. De equilibrar os pratos da balança de Thetis.

São, como disse, circunstâncias do nosso dia-a-dia. Com sonoridade maior no domínio sócio-político, principalmente hoje. Mas sempre constantes na alma de cada um. Em maior ou menor grau. Principalmente quando chegamos à conclusão que o nosso sofrimento foi em vão. Como se rotulassem alguém de fdp e não levassem o troco.

 

Bilhete-postal

João-Afonso Machado, 06.09.11

Olá!

Sei-te muito ocupada e por isso a brevidade destas linhas. No fundo apenas para te confirmar que me decidi a viajar. O medo é muito, confesso, um verdadeiro terror. Estranha destino onde se chega tão depressa, ou tão vagarosamente, vá a gente de avião, de barco ou no comboio... Mas o Rui insiste em que me faça ao caminho. Diz ele, vale a pena. Até porque estarás lá também, lembra sempre o Rui.

Foi isso que me levou a deitar os trapos à mochila. Seja o que Deus quiser. Assim não me perca e chegue aí direitinho.

Depois podiamos dar um passeio àquela praia já fora da época balnear. Lembras-te? Havia silêncio e o marulhar das ondas, apenas, e a nossa conversa uma tarde inteira. Eu gostei, tu sempre recordaste esse momento com saudade.

E pronto. Darei oportunamente notícias. Fico-me por aqui, que o espaço é curto. Um beijo.

PS. Diz-me só se prevês frio e os dias já muito curtos nessa altura. Só para eu me munir de um agasalho. Adeus.