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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Um minhoto na Capital

João-Afonso Machado, 25.08.11

Eu esperava tudo menos esse encontro. Um fim-de-tarde estagnado de Agosto, a caminho da pensão, e ela na paragem do eléctrico, submissa, amolecida, sem chocalhar o relógio. A surpresa foi recíproca. Cumprimentámo-nos.

- Então vem da praia?

A minha sacola, realmente, tinha todo o aspecto de um merendeiro e, por hábito, não uso sapatilhas. Nem calções na via pública. Sim, estava chegando de um passeio a S. Martinho do Porto...

Uma boca muito aberta parecia incapaz de crer nas minhas palavras.

(- A S. Martinho?!)

como se quisera convencê-la fora ao outro mundo e regressara. Mas porquê a admiração, afinal? O comboio, ali no Rossio, uma horita de viagem...

-Àquele penico?!

Qual penico! Nem pusera os pés na areia. Subi às falesias, desci as penedias, até me vieram saudades do Gerês. Um nome assim - S. Martinho do Porto - só podia ser o de uma grande terra. A lembrar Dume, Braga, a nossa Invicta...

- Mas você tinha a Caparica, na outra banda...

Encarei-a com alguma severidade. Ela percebeu. Conhecia também, certamente, o aforismo que se lia nos meus olhos: pobrete mas alegrete. Não insistiu.

- E Cascais...

Estive quase a citar-lhe a minha querida Avó, que garantia depois do assassinato do Senhor Dom Carlos ninguém mais fora a Cascais. Mas contive-me, talvez entretanto alguém tivesse mesmo regressado.

- Dizem que as pessoas são lá constantemente assaltadas por mangas furiosas de zulus. E sem uma Kropaschek para se defenderem, uma pressão-de-ar, ao menos...

Que não, isso acontecia em Carcavelos, na Parede. Cascais mantinha-se sossegada, a pérola da Linha... Coitadinha, não imaginando, sequer, no tempo que demoraria a atravessar a rua, nos seus saltos tamanhões, os zulus punham-se em Cascais e ainda saqueavam a Cidadela. Também eu resolvi galgar mais depressa:

- E a menina? Por aqui, em vez de gozar férias?

Onde iam elas!... Rumara destinos exóticos, gostava de conhecer mundo. Agora, aos fins-de-semana, umas escapadelas à Ribeira de Ilhas...

Enchi-me então de gozo, tais as recordações dos anos em que veraneava com os meus primos citadinos na Ericeira. Quando a Praia do Sul era já uma colmeia insuportável e não surgira ainda a moda dos surfistas. Fugíamos para o Milrego, para a Ribeira de Ilhas, quase desertas, à parte o barracão de madeira onde comprávamos carocas e ferraduras, aqueles bolos com sabor a anis. O mais eram os Repimpas e todo o santo dia a fazer carreirinhas nas ondas.

E não fosse o aproximar do eléctrico

(- Adeus, continuação de boas férias...

- Adeus, menina, até à próxima...),

não chegasse esse estraga-tudo, ainda agora prosseguiria a minha narrativa, se calhar naquele mergulho do Pedro, num fundão entre as rochas, maré baixa, onde espreitava uma moreia de dentes arreganhados...