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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Suaves visões de reforma

João-Afonso Machado, 19.08.11

A antecipação dos nossos dias de reforma foi a inevitável consequência da chegada ao Nordeste. Os planos sucediam-se: ali viveríamos tão ansiada liberdade.

Comparecia à chamada a igreja paroquial, imponente, basalto esmeradamente burilado, pronta a receber-nos em frequentíssimas acções de graças... A escassez de gente garantia-nos o sossego. E o mar, muito lá em baixo, azulava-nos o olhar e a alma.

Entretanto, a ala feminina do passeio descobriu uma boutique em saldos e lançou-se no saque. Fui espreitando o café da terra, a farmácia, o consultório médico, tudo acessórios da maior utilidade para nós, futuros reformados, porta com porta, tudo concentrado na praça principal. E, de passagem pela matança,

- Então isto é que vai cá um movimento, hein?!

e a empregada da boutique, já sem fala, acenava "sim" com a cabeça, sufocando sobre pares de sandálias, biquinis, blusas, a loja completamente em pantanas.

Sentei-me no jardim frente à Casa do Pai, imbuído do espírito contemplativo-palrador dos octogenários do banco vizinho. Gozando por antecipação as delícias dessa idade prometida dos não-horários. Até que a hoste das senhoras se deu por saciada e largou o que restava do estabelecimento.

Retomámos a marcha, interrompida novamente num miradouro mais à frente. Como nós, na borda da falésia descansavam umas tantas cabeças de gado. Não digo reformadas, livres do talho, mas tranquilas, ruminando o sol, o oceano, a estaticidade do tempo. Era ali, indubitavelmente, o lugar encantado da paz e da ausência de relógios. Conjecturávamos livros, serões aconchegantes, janelas de inverno repletas de quadros ímpares de tempestades grandiosas e inofensivas.

Mas faltavam as perdizes, as galinholas, as narcejas. Como explicá-lo ao meus perdigueiros? Como não ofender esses inigualáveis parceiros? E, bem vistas as coisas, como implantar em definitivo um minhoto fora do Minho? É que nós somos de raízes fundas, não pegamos de estaca...

Assim, descoroçoados, regressámos para o avião do dia seguinte.