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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Antero

João-Afonso Machado, 12.08.11

E um dia mais de três décadas de angústia e dor se sentaram no banco discreto e desconfortável do Campo de S. Francisco. Porventura de olhos postos no percurso do tempo. No turpor intelectual de Coimbra, na Sociedade do Raio, no Manifesto dos estudantes. O fruto da sua genialidade, do seu inconformismo. Terá sorrido - quem sabe? - recordando a Questão Coimbrã, o triunfo improvável, espadachim de improviso, na Arca de Água... E as Conferências Democráticas do Casino, onde foi o primeiro orador. Depois crispou-se-lhe a expressão ao desfilarem na memória as viagens, a rude vida experimentada dos tipógrafos parisienses. E chorou tudo o que choram os incompreendidos, socialista utópico mas cioso do rigor das palavras, traves-mestras dos conceitos. Quando, em seu redor, as utilizavam como buracos por onde fogem os ratos, as palavras, esses arautos da Verdade. Da Ideia...

Ponta Delgada, seu berço, acolhia-o nos momentos de maior desalento. Está lá tudo, nos seus sonetos.

("Na mão de Deus, na sua mão direita,/Descansou afinal meu coração/.../Dorme o teu sono coração liberto,/Dorme na mão de Deus eternamente!").

As filhas orfãs de Germano Vieira de Meireles, a presidência - num derradeiro arranco vital - da Liga Patriótica do Norte... E S. Miguel, definitivamente. Até essa tarde de Setembro, uma tarde como tantas outras apenas inquietada por dois tiros de revólver. Antero de Quental vergara ao peso de uma vida por quase todos inalcançável. Nesse banco corrido de pau do Campo de S. Francisco.

Santo Antero, já há muito Eça tinha percebido.