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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

Chega de palavras, vamos aos actos

João-Afonso Machado, 04.08.11

No actual Governo eu aposto sobretudo na sua coragem de levar para a frente a concretização de medidas, embora impopulares, necessárias à lavagem do País. Do nosso País político, financeiro, económico, social... Enfim, quero crer na sua capacidade de reformular, reformar e pôr em campo uma verdadeira esfregadela nacional. Nem que isso lhe custe a legislatura, como tantos socialistas, nos momentos adequados, têm velada mas repetidamente ameaçado.

De modo que falo de um Governo, contrariando a tendência dos seus antecessores, que não viva a adiar a resolução dos problemas portugueses só para não perder as eleições. Que coloque a questão como ela deve ser colocada: qual o mal de perder as eleições? Para os não politico-dependentes, não significará, até, um imenso alívio a perda das eleições?

A ser verdade ter chegado a hora dos actos, findo o extenso período da retórica, a taxação dos automóveis no centro das maiores cidades portuguesas constituiria uma decisão sem dúvida polémica, mas da maior conveniência. Sem entrar em pormenores, suponho que essa é uma prática corrente em cerca de 40 grandes urbes europeias - onde a qualidade de vida há-de ser inquestionávelmente superior á nossa, não obstante as respectivas populações e arredores também nos fazerem sentir vivendo em vilóriazinhas....

A ver vamos, portanto. Tem a palavra a Sr. Ministro da Economia. A palavra e, oxalá, o gesto também.

 

 

Sobre a memória dos estaleiros

João-Afonso Machado, 04.08.11

Chamam-lhe marina, agora que quase tudo se foi. Mas o Mosteiro de Santa Clara, ao fundo, esse ficou, ele sozinho é Vila do Conde, vísivel de tão longe, de tantas páginas de memórias, clausura de meninas nobres, freiras sem vocação saltando das janelas para carros de palha, fugas inverosímeis, fria e implacável prisão, casa de correcção de menores, ruína anunciada.

Aos seus pés, o Ave. Onde antigamente os pescadores pescavam, junto ao jardim, em demoradas tardes de palração e alguma tainha distraída. E, logo após, os estaleiros. Todo o ano os estaleiros, as escoras de madeira a segurar os esqueletos das traineiras, o ruído das serras, o formigar de carpinteiros, uma nuvem perpétua de serrim. Deixando um enorme vazio, mesmo ali onde a marina bem se dispensava estivesse a roubar-lhe a presença. Porque embarcações destas há-as tantas quanto as pedras do caminho; e as outras - as que nasciam para ir ao mar lançar as redes - são cada vez mais uma saudade, apenas uma sonho, da povoação nascida para vencer a barra, para os nossos remotos passeios de bicicleta junto ao rio, furando a nuvem de serrim, explicando-nos por gestos, ensurdecidos pelas incansáveis serras.

Ainda assim, Bartolomeu Dias enfrentou a distância. Numa tarde antiga de pesca no cais, já quase na foz. Imagem inesquecível, como se ainda agora o vento espanejasse as suas velas engrinaldadas. E, vencido o Cabo das Tormentas, tornou a Vila do Conde, onde repousa, cumprida a missão.