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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

"Viva o Minho" - um livro

João-Afonso Machado, 01.08.11

"Viva o Minho" consiste na recolha de umas dezenas de depoimentos de minhotos dos mais variados quadrantes políticos ou profissionais. E oriundos dos quatro cantos da Provincia. Nele se abordam as premências da Região, em geral, e de diversos concelhos ou localidades, em particular.

O livro pode ser obtido através de contacto com a Chiado Editora (chiadoeditora.com). Também lá deixei umas breves impressões sobre V. N. de Famalicão.

 

A praia oculta de Vila do Conde

João-Afonso Machado, 01.08.11

Coubemos lá durante décadas e décadas. Mas agora há gente em demasia apenas vivendo nas nossas recordações. Desde os tempos em que as senhoras mais idosas - antes ainda do maillot... - se reuniam na grande barraca azul, a maior de todas, no tricot de manhãs inteiras. E desde as pocinhas na maré baixa, a perseguição desabrida aos camarões, estrelas-do-mar, peixinhos, caranguejos, até aos banhos gelados e um pão com manteiga comido depois, ao sol, esticados na toalha quase em convulsões...

Havia a colónia de férias, os barquilhos, uma formação de toldos, quais trincheiras cavadas no ar contra a nortada. A rede de vólei estava lá para a rapaziada mais velha, o bote salva-vidas para o que desse e viesse. Os bolos da Sra. Ana, aquele baú pintado de branco para cá e para lá todo o santo dia sobre o areal. Depois chegaram os cigarros fumados às escondidas, a caminho da Baía dos Elefantes, onde, mais recatadamente, também já se namorava.

Os penedos tinham nomes - a Boca da Baleia, o Central, o Rodrigo - e o banheiro Baltazar, a eternidade em gente, um verdadeiro marechal em cima deles, apitando ordens de retorno aos mais afoitos.

A temporada está no início. Vila do Conde atulhar-se-à de veraneantes. De labirintos de barracas, música aos pinchos e merendas copiosas. Nada que sustenha, porém, o agitar dessas sombras do Passado desaparecidas uma a uma, todos os anos faltava alguém, todos os anos sabiámos haveria um próximo faltoso. E já foram tantos anos...

Emprestei a bicicleta ao meu irmão mais novo, ao meu sobrinho, ambos meus afilhados. E vim embora. Eles têm outra idade, não lhes faltam forças para fazer frente à terrível presença da ausência. Mas a mim já.