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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A tragédia norueguesa

João-Afonso Machado, 24.07.11

A comparação entre a carnificina de Oslo e o atentado de Oklahoma (1995) é decerto o instrumento ideal para concluir que - ou não navegássemos em águas tão frias... - apenas visionamos ainda a ponta do iceberg.

Timothy McVeigh liderava um grupo político armado. Os EUA nasceram de pistolas na mão e assim cresceram e vivem. Está-lhes no sangue, e o seu território é suficientemente amplo para que toda a loucura nele guardada treine e aperfeiçoe à vontade a arte do tiro.

Não assim na Noruega, considerado o mais pacífico país. Os seus fiordes não deixariam de denunciar, prontamente, os ecos alarmantes de qualquer actividade para-militar e ilegal.

Lembremo-nos, no entanto, que a esmagadora maioria das vítimas caiu às balas de Anders Behring Breivir, o homicida confesso. Um empresário agrícola, pretensamente um fanático religioso, xenófobo, ideológicamente posicionado na extrema-direita... Tudo muito vago. Tudo muito apressado, talvez.

Para além de algumas questões logisticas óbvias - e por isso não ocultadas - implicando a fatal existência de cumplices, o facto principal é este: o assassino esteve quase uma hora a disparar uma metralhadora. Matando sempre, nunca se cansando de matar. O que supõe, para além desse sinistro propósito sanguinário, um grau de preparação psicológica que indiciará algo mais do que loucura; e o saber manejar a arma, uma arma de guerra que não se adquire, transporta e utiliza assim como uma bicicleta qualquer.

Dois aspectos mais, a terminar: as organizações islamitas já apelaram a que ninguém, de entre os seus, reclame os atentados. Porquê? E Anders B. Breivir, em tempos vigiado pela polícia norueguesa, foi então considerado inofensivo. Arrisca agora uma pena máxima de 21 anos de prisão - regressará à liberdade ainda a meio dos cinquentas. Assusta, não assusta? Mas a lei, por defenição, tem carácter geral e abstracto; e não dispõe de eficácia retroactiva...

 

O Seguro morre de velho

João-Afonso Machado, 24.07.11

A vitória eleitoral de António José Seguro era mais do que previsível: era certa. Pela simples e incontornável razão de que Seguro não arrisca. É olhá-lo, ouvi-lo, observá-lo e concluir o óbvio.

Há já muito tempo adivinhara a queda socrática no precipício. Afastou-se então, para terrenos mais consistentes. Foi aparecendo o menos possivel, dizendo apenas o indispensável e, evidentemente, preparando as estruturas locais do PS para depois do desastre.

Ressurgiu ainda Sócrates não esfriara na urna dos votos. No mais conseguido estilo socialista: o fatinho à medida, o discurso redondo com pretensões a didactismo, a sobrancelha arqueada ao peso dos seus rigores éticos. E um tratado imenso, lido e explicado aos portugueses, sobre a revelação dos segredos e mistérios democráticos.

Francisco Assis é o oposto de Seguro e por isso estava condenado a perder. Invariávelmente sem tempo para compor o nó da gravata e barbear-se convenientemente, com os argumentos e as palavras na ponta da lingua, nem mesmo a sua derrota eleitoral na Câmara do Porto o ajudou a entender que será sempre carne para canhão. Um oportuno chefe de grupo parlamentar. Ou um comicieiro destemido, homem que se envia a Felgueiras, onde perdeu os óculos e quase perdia a pele às mãos dos apoiantes de Fátima.

Enfim, dois vultos diametralmente opostos. Onde num reside o calculismo e a rejeição do improviso, no outro vive plenamente a espontaneidade. A grande questão estará em saber qual o menos prejudicial à acção governativa, infeliz mas necessáriamente impopular. A consciência civica de Seguro estar-lhe-á sempre na oratória. E nas decisões e nos actos?