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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

No topo da Basílica

João-Afonso Machado, 12.06.11

O elevador seria egoísmo, comodismo, ingratidão. O percurso a pé, o único admissivel para quem goza da graça da saúde. E a cúpula da Basílica de S. Pedro, mais de cem metros acima do solo, uma obrigação subida helicoidalmente.

Esvai-se a noção do tempo na sucessão dos patamares. Roda-se. Sempre em rampa fechada ao exterior. No termo da primeira fase é o varandim, já próximo da abóboda de Miguel Ângelo, e pequenos pontos negros formigando no fundo - os visitantes movimentando-se nos mármores e mosaicos do piso da entrada.

A ponta final complica-se. A inclinação do tecto da cúpula faz-nos convictos de que o mundo adornou. Sobrevém a claustrofobia, as vertigens. O corredor estreita, degraus altos e curtos, difíceis. Há quem volte atrás, gera-se o caos na circulação. Mas porquê temer? Porque não o silêncio?

Enfim a chegada à abertura da lanterna.  Cá fora, Roma inteira, o Lácio e as suas colinas ("castellos"), a vida de cada um acenando ao longe, do outro lado da neblina...

 

A Sameiro

João-Afonso Machado, 12.06.11

É bem uma recordação domingueira. A Maria do Sameiro. Na cozinha, a sua arte não deslumbrava. Mas não havia outra como ela, de volta dos lençois das camas e dos espanadores, enfrentando galhardamente o desarrumo e o pó. Durante toda a semana, até que, chegando o Dia do Senhor, alto lá com o "pagode": vestidinho branco, bolsinha também, sapatinho novo a luzir o verniz. Muito lesta, estrada fora, o comboio para Braga era só aquele. Ia visitar a madrinha, dizia, subiriam ambas a Falperra, esperava-as um refresco lá no alto, antes do regresso, ainda a horas de dar um jeito no jantar.

Certa vez a madrinha telefonou, preocupada,

- A moça saiu-se a dizer que tinha noivo, ia conhecer breve os pais dele...,

mas dessas histórias ninguém sabia, a Sameiro toda ela era limpezas e, à noitinha, o terço e uns livritos que pedia emprestados, em cuja leitura intentava apurar os seus conhecimentos, a sua caligrafia... Ainda assim exigiu a madrinha se averiguasse ao certo o que estaria acontecendo.

Foi um sarilho! A Sameiro, muito depressa subia o tom de voz e esganiçava como se viesse do Bom Jesus elevador abaixo.

- Sameiro! Tento na língua e respeitinho!

E perante a intimação da patroa, a Sameiro lá explicou que vira em Braga um cavaleiro, todo garboso, mancebo tão jeitoso. Sem querer fugira-lhe entre os dentes um dito qualquer e o pimpão, revolteando a montada, prometera-lhe um desses dias cearem juntos.

Fora só isso, tranquilizou-se a madrinha, o noivado da Sameiro...