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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

A ruptura social

João-Afonso Machado, 20.04.11

A alusão de Carvalho da Silva, ontem, em entrevista televisiva, a uma previsivel "ruptura social" não traduz própriamente uma preocupação - antes uma clara ameaça. Dirigida à "Direita" que povoa de fantasmas o seu sotão, mas atingindo em pleno, obviamente, o País e os portugueses no seu todo.

Na realidade, já se percebeu a irredutibilidade de posições dos agentes políticos e dos parceiros sociais. Somos assim, mesmo nas piores alturas...

À esquerda do PS, o objectivo reside agora em colher dividendos de uma situação impar na nossa História. Uma situação de efectiva miséria para muitos, muitíssimos infelizes, sem dúvida.

Entre os restantes partidos, impera a preocupação de endossar responsabilidades. E o medo - claramente - de enfrentar a ira popular. Talvez também pela primeira vez - e não apenas no que respeita ao negócio político...

E tudo para quê? As medidas restritivas do FMI não se farão sentir antes das eleições. Não aproveitando, assim, à Esquerda comunista. E para os portugueses, o estado da Nação é obra (maldita) da classe partidária, a quem imputam culpas conjuntas.

Árduo trabalho, o do FMI, afinal, confrontado com tais interlocutores. E árduos dias nos esperam. Dias, sem dúvida, de agitação e tumultos, sobretudo nos grandes centros urbanos.

 

 

Antero de Quental

João-Afonso Machado, 18.04.11

Há 169 anos nascia em S. Miguel, Açores, Antero de Quental. O sonetista genial, um filósofo marcante, um espírito de paixões e desilusões. Uma vida inteira de sofrimento que o conduziria à imortalidade entre os nossos maiores. Geralmente - e mal-intencionadamente - interpretado de modo distorcido. Senão porquê, leia-se este excerto de uma sua carta a Lobo de Campos, seu amigo e contemporâneo na Universidade coimbrã:

«Creio que teremos República em Portugal, mais ano, menos ano; mas francamente não a desejo, a não ser de um ponto de vista todo pessoal, como espectáculo e ensino. Então é que havemos de ver o que é atufar-se uma nação em lama e asneira. Falam da Espanha com desdém - e há de quê - mas eles, os briosos portugueses, estão destinados a dar ao mundo um espectáculo republicano ainda mais curioso: se a República espanhola é de doidos, a nossa será de garotos».

Eça de Queiroz, seu admirador incondicional, chamava-lhe Santo Antero. Além de santo, Antero era também, como se vê, profeta.

 

Tempo pascal

João-Afonso Machado, 18.04.11

Têm a cor da Semana Santa e são elemento fundamental nos tapetes de flores à entrada, para receber o compasso. As glicínias chegam com a Páscoa. Mais ou menos como a Primavera, os ninhos, as rãs e as lagartixas. E são como um apelo nestes dias, mais vagarosos, porventura mais meditativos. Regresso à terra. Com papel bastante para avançar no meu escrito actual. Com uma boa reserva de leitura. Com a cana de pesca, também.

E com alguma esperança. Ainda não sei bem de quê e porquê. Talvez de que todos ressuscitemos. Portugal precisa de ressuscitar e a época é propícia.

 

Das "Memórias de um Átomo"

João-Afonso Machado, 16.04.11

«Foi, de resto, comentadíssima a forma desonrosa como o Governo terminou os seus dias. Sabia-se que as Forças Armadas andavam descontentes, conspirativas, após três meses sem vêr a cor ao soldo. E o Presidente do Ministério, obsessivamente, não cuidando de encontrar uma palavra de conforto, um vestígio de solução.

De modo que o golpe de Estado se tornou inevitável. Oriundas de todo o território nacional, as tropas convergiram para a capital. Ocupando os centros decisórios e obrigando o Governo a refugiar-se no quartel do Carmo. Belém, como já se esperava, manteve-se neutral e o Parlamento há muito encerrara.

A fuga era agora inevitável. Mas para onde, com os aeroportos da Portela e de Alcochete, controlados pelos revoltosos, e o da Ota àquela distância? E o TGV paralisado? E a chaimite da tradição sem comparecer?

- Não deixarei o poder cair na rua!,

clamava José Sócrates, na sua eterna teimosia. E Santos Silva corroborava o chefe, os olhinhos pisqueiros, atrás as lunetas,

- Vamos exterminá-los!,

embebido ainda numa biografia de Himmler lida recentemente. Lacão chorava e exigia um colete à prova de balas. Sem isso, jurava não pôr o nariz fora de porta e, na realidade (e não obstante os esforços de Isabel Alçada), acabou saindo arrastado e a espernear.

O Pedro inquiria pela milésima vez:

- E agora Zé?,

mas foi Luis Amado, sempre fleumático, quem acabou por desenrascar toda a gente, após um breve e cortês telefonema:

- Está tudo arranjado. Um dos submarinos do Portas, surto no Tejo, leva-nos embora.

Muitos pensaram que teriam rumado a Madeira. Mas Alberto João apressou-se a desmentir o boato:

- A Região Autónoma jamais receberá essa corja!!!

O destino secreto do Governo seria depois tornado público. Foi principescamente recebido na Venezuela: Chavez não esquece os seus amigos».

 

(Com a devida autorização do meu Amigo J. da Ega, a quem muito agradeço).

 

Gordura (ainda) é formosura?

João-Afonso Machado, 15.04.11

Esbodegada, disforme. Monstruosamente. Despida e sem dar que vestir à prole. Irracional, dir-se-ia, sem distinguir o verde do encarnado - hesitando, eternamente, entre avançar ou ficar queda. Abancada, quando devia saltar, lutar, sobreviver.

É a República portuguesa. Hoje governada pela Troika. Gente de fora que bisbilhota e decide cá dentro. E manda recados para Helsínquia e para os outros esmoleres.

 

No Sabor

João-Afonso Machado, 15.04.11

Meirinhos, freguesia do concelho do Mogadouro. Em pleno coração transmontano. Daqui a dois anos, esta paisagem não mais será do que uma vaga recordação afogada na albufeira da barragem do Baixo Sabor. Já em construção.

Estranhamente, mesmo os assanhados ambientalistas organizados mantém um silêncio comprometedor em relação a mais este crime contra a Natureza. Perpetrado num rio nascido em Portugal e afluente do Douro, considerado o mais selvagem, e aglutinador de uma variedade ímpar de flora e fauna. Aí são presentes o lobo e a lontra e abundam os javalis e os corços. E em cujos pegos se multiplicam as trutas, e os barbos, na transparência dos seus fundos de areia.

Tudo submergirá. As margens transformar-se-ão em abismos. As encostas em lodo. O ar puro em águas diluvianas. Onde decerto não faltará, a seu tempo, o toque burguês da lancha ou da mota aquática.

Como em tantos outros casos, o breu das albufeiras tragará a nossa consciência. Na inquietante impossibilidade de uma alma que não se revê na limpidez do Sabor de sempre, nos aromas e contornos que o ladeiam.

 

Diário da República

João-Afonso Machado, 14.04.11

1. São dados idóneos. O desemprego continuará a aumentar. Antes de 2016 não tornará abaixo dos 10%. Evidentemente, tudo traduz uma evolução a passo de caracol da nossa Economia.

2. Os inspectores do FMI prosseguem a sua árdua tarefa. A todo o momento poderão surgir novidades: escandalosas, mas já não surpreendentes.

3. Aonde param Sócrates e os seus ministros? O único socialista a dar a cara ao noticiário da hora do almoço, na RTP1, foi António José Seguro. Por acaso numa mesa-redonda em que participava também Miguel Relvas, e insistindo sempre estar ali apenas para debater "temas académicos"...

4. Fernando Nobre jurou renunciar ao cargo de deputado, se não for eleito para a presidência da A. R.

 

Valha-nos Nossa Senhora!...

 

Ao longo do cais

João-Afonso Machado, 14.04.11

São pausas na vida, os portos de mar. Como se, de repente, deixassemos para trás o alvoroço da Feira Popular e entrassemos na quietude do universo zen. No absoluto equilíbrio dos elementos, onde os cargueiros transportam cargas, os rebocadores rebocam, os pescadores pescam, sentados nos muros... mesmo se vernaculizando entre eles, acerca do futebol.

Tudo está no seu lugar: a imensidão das águas, a eterna ondulação rematada em traços de espuma a fervilhar junto às pedras; a melodia do voo das gaivotas, as mudanças de rumo nos seus piares. Nada perturba o deslizar dos dias no cais. Muito menos a chegada das embarcações carregadas de peixe, o entusiasmo que envolve a saga das redes.

E depois, esse imenso consolo: em qualquer cais do mundo, estamos sempre de costas voltadas para a Assembleia da República...

 

 

Linha do Norte

João-Afonso Machado, 13.04.11

...

Regressámos às vinhas e aos olivais, preenchendo qualquer elevação do terreno. Por mais uma hora, quase, a guardar ainda vestígios de cheias recentes. Repetitiva embora, a paisagem não cansa, no seu mutismo do voo das grandes aves, pintalgada, aqui e ali, de rebanhos de gado ovino.

As janelas do comboio permanecem uma tentação de fotografias. O tema versa os enquadramentos, sempre iguais, sempre diferentes, do mundo dos pastos e das culturas extensivas. Alguns casinhotos explicam os seus obreiros.

Um silo imenso, rente à linha, cobra o cereal da região. Carrancudo, de medieva e inclemente expressão. Sem olhos, sem um gesto, um piscar de janelas. Desalmado. Uma avantesma. E o comboio, num impulso maior, como se fugisse, deixa para trás aquela bizarra aparição. O cenário insiste nos resquícios das inundações, em sucessivas debandadas de pernaltas. A viagem é um camarote debruçado sobre o paraíso, no fascínio daquele moroso esvoaçar, danças ao vento, silhuetas que se perdem e parecem reaparecer adiante. Entre charcos, ribeiras, canais ou lamaçais. Onde a presença humana não chega.

 

Abuso de confiança fiscal no Ministério da Administração Interna

João-Afonso Machado, 13.04.11

Quer a PSP, quer a GNR, quer o Serviço de Estrageiros e Fronteiras não estão, presentemente, a entregar aos cofres do Estado a retenção na fonte do IRS dos seus funcionários.

Há uma explicação, não há? Claro. De outro modo, não sobraria para pagar os ordenados.

É essa a explicação de milhares e milhares de empresários, nem assim dispensados de responder em juizo criminal pelo ilícito de abuso de confiança fiscal.

Desta feira, dirão ainda, é o Estado que não recebe do próprio Estado... Pois será. Mas a definição de crime contempla uma conduta merecedora de uma especial censura da sociedade. Não do - aliás, pirata - todo-poderoso Estado.

De modo que está na altura das instâncias judiciais começarem a elaborar a longa lista de arguidos neste processo de crime fiscal. À cabeça, desde logo, o Ministro da Administração Interna.