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MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

MACHADO, JA

A minha escrita, a minha fotografia, o meu mundo

O "divórcio"

João-Afonso Machado, 25.01.11

A instâncias de Judite de Sousa, no serão televisivo das derradeiras eleições, Rui Rio foi muito claro, apreciando o elevadíssimo abstencionismo: «existe um evidente divórcio entre o Regime e a Sociedade». Palavras suas.

A anfitreã, ignoro porquê, não o deixou desenvolver o tema. Mas a afirmação, categórica, ficou. E merece reflictamos, também, sobre ela.

O divórcio é uma forma de dissolução de um casamento, diz a lei e sabemo-lo nós. No caso, os conjuges desavindos serão, pois, o Regime e a Sociedade.

Vale dizer: a República (a forma como o Estado se organizou) e os cidadãos (no seu conjunto constituindo o povo português).

De outro modo ainda: os portugueses não se identificam com a estrutura politico-constitucional em que vivem. Maioritáriamente, é claro. Por isso, mais de metade do eleitorado nem sequer quis exprimir qualquer intenção de voto. E uma outra parcela (muito inferior em número, mas ainda assim em crescendo percentual) deu-se ao trabalho de manifestar nas urnas que dos sete candidatos nenhum lhe servia.

Perante estes factos, absolutamente incontroversos, que autoridade ou legitimidade assistem aos senadores da República para falar em nome do povo?

É que talvez ainda não saibamos o que queremos. Mas seguramente já declarámos o que não queremos...

 

Os "votos brancos" triplicaram

João-Afonso Machado, 25.01.11

Nas eleições de anteontem, o voto branco cifrou-se em numeros que superaram os 200.00. Ou seja, o triplo dos contabilizados nas últimas Presidenciais.

A sacramental pergunta é simples: quem, e porquê, entregou o boletim em branco?

À Esquerda - ressalvadas todas as excepções, que servem unicamente para confirmar a regra - o eleitorado estava bem preenchido. Lopes servia o PCP e afins, Alegre constituia um belíssimo trampolim para o BE.

À Direita, talvez nada fosse tão linear, mas - Cavaco era um vencedor antecipado (sinal de uma clique fiel) e Nobre navegava nas águas inconstantes do Centrão e dos aversos à disciplina partidária.

Defensor e Coelho constituiam a oferta sobejante para bairristas, anarquistas e excêntricos em geral.

Mais de 200.000 eleitores idos ao calvário das assembleias de voto buscar um papel em que nada escreveram - nada!, nem uma injúria aos políticos - é um acto de vontade com um significado que, claramente, o Regime quer deixar passar ao largo. Até porque, como disse, hava candidatos para todos os gostos.

Esse acto é a expressão de um sinal. Um sinal, para Viriato Soromenho Marques, "que não indicia nada de bom"; e, para José Adelino Maltez, "de novos tempos".

Estou com este último. Mantenhamo-nos atentos aos tempos que aí vêm.

 

Greves em Évora e Lisboa

João-Afonso Machado, 25.01.11

Num Inverno deveras rigoroso, as reivindicações dos trabalhadores agrícolas tornam-se mais sonoras em Janeiro. Não há emprego - mesmo precário - logo implanta-se a fome. O salário mínimo torna-se a palavra de ordem, bem como a sua indexação ao custo de vida.

Porque o Governo fizesse ouvidos de mercador, surgem as greves. Com capital em Évora, prontamente invadida pela GNR e pelo Exército. Mesmo por voluntários civis - gorilas, caceteiros, capangas, o que lhes queiram chamar. A violência instalou-se na cidade, onde, resto, as entradas e saídas das pessoas eram rigorosamente controladas pelos governamentais. Entre pedradas, do lado mais fraco, e o tiroteio da forças militares (e seus auxiliares...), sobraram mortes, muitos feridos e mais grevistas detidos.

Em Lisboa, a União dos Sindicatos Operários solidarizou com os alentejanos e proclamou a greve geral. Os responsáveis do Exército declararam o estado de sítio por trinta dias. A Casa Sindical foi sitiada e obrigada a render-se. Os perigosos insurrectos - cerca de seiscentos e vinte - seguiram, escoltados por baionetas caladas, para os porões de dois navios de guerra, no Tejo. Para a prisão, mesmo dispensado o julgamento.

Em Janeiro, dizia eu. Em Janeiro de 1912, preciso agora. Sendo a República uma jovenzinha, mas já assim ruim.